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  • 11 Ago 2018

    Pasolini

    A solidão: é preciso ser muito forte
    para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
    e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
    pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
    assaltantes ou assassinos; há que caminhar
    por toda a tarde ou talvez por toda a noite
    é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
    sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
    e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
    não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
    exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
    sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
    O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
    ― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
    ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
    que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
    mais quente e vivo é o corpo gentil
    que exala sêmen e se vai,
    mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
    é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
    não o sorriso inocente ou a prepotência turva
    de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
    enormemente jovem; e nisso é desumano,
    porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
    que é sempre o mesmo em todas as estações.
    Um jovem em seus primeiros amores
    não é senão a fecundidade do mundo.
    É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
    como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
    e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
    o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
    a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
    espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
    ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
    como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
    Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
    sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
    e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
    e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
    e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
    que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
    e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
    é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
    Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
    que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
    onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.

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