Acabei de ler uma história deliciosa. Talvez o seja mais para mim porque faz parte da minha juventude. A começar pela ‘boémia’ o bar ponto de passagem obrigatório de muitas noites.

O que me ficou mais foi a resposta do kalhabeta ás condolências pela morte de um amigo
“ah, mas ele está bem”
Fica a aqui a história completa.

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O Kalhabeta é, sempre foi e será, uma personagem em tempo real.

Para o vulgo incauto transeunte que com ele se cruze numa noite de La Bohéme, pode parecer um pouco extravagante, ou meio-amalucado, ou completamente doido-varrido, dependendo do grau de interacção com ele praticado.

Já o conheço há muito, talvez não só desta existência, e finalmente creio ter conseguido compreendê-lo.

O Carlos é apenas um receptáculo-emissor, um médium espontâneo, uma antena transmissora do além. Os seus gestos comprovam-no, o seu discurso, sempre esforçado na tentativa de ser compreendido, pode (e deve) tornar-se incompreensível com o decorrer do seu estado de consciência alterado, como um rádio que não consegue parar na mesma estação por mais de cinco segundos. Mas a sua mensagem é simples, nasce do amor, da empatia pelo seu privilegiado interlocutor, e flui numa panóplia difícil de acompanhar. Disse-lhe, perdido — “voas depressa demais para as minhas pobres asas.”

Estamos a trabalhar uma história para crianças sobre o 25 de Abril, a apresentar na própria data, em que o protagonista é o Zeca Afonso. Não havia forma de o Kalhabeta saber disto, nem lho dissemos, nem a “rede social” que ele usa está disponível ao comum dos mortais.

Chegámos ao bar, eu e o meu amor, e fomos na direcção da mesa onde ele estava, falando com um casal nosso amigo. Após alguns minutos de conversa aleatória, notei que não era bem ele, ou por outra, que estava bem rodeado pelos seus anjos. Um observador imparcial diria que ele estava muito bêbado, ou que tinha pirado de vez. O que também seria em parte verdade, mas não só: do nada, o Kalhabeta disse-nos — “vou oferecer-vos a caixa do Zeca Afonso”. Saiu, foi a casa e voltou com uma colectânea com dois LP’s do Zeca.

Momentos depois, fui até lá fora aspirar o ar da noite, inalando e expirando fumos pelo meio, e observei as curtas vielas por detrás das antigas muralhas da cidade, desertas, apenas os sons do bar, a música e as conversas imperceptíveis. Terminada a fumaça, voltei à mesa, e aconteceu tudo muito rápido, ele estava a falar de alguém, um amigo em comum, que cuidava de cães e que havia falecido há cerca de duas semanas, ao que a sua interlocutora, a esposa do nosso casal amigo, reagiu com normal consternação, e o Kalhabeta respondeu — “mas ele está bem”, e, dito isto, uma matilha de cães irrompeu a ladrar pelas ruas, aquelas mesmas há instantes desertas.

“Ouviram os cães? De quem é que nós estávamos a falar?”