hoje não acordei com uma frase na cabeça

Acordei com um conto.
E lembro-me de cada pequeno pormenor como se o tivesse vivido.

Estranha coisa, os sonhos.

vi-te hoje
não era tarde

tinhas uma árvore a crescer-te na cabeça
mas as árvores não crescem nas cabeças

 

Estava a almoçar quando entra um casal com ar de quem vem da praia.
Chinelo e calção, mas os pés e pele imaculados.
Como pode ser a praia sem areia nem sal?

há o que nunca acontece
e depois acontece

 

A noite passada acordei com o teu beijo
Descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo

 

Chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
Olhei para baixo dormias lá no fundo
Faltou-me o pé senti que me afundava
Por entre as algas teu cabelo boiava
A lua cheia escureceu nas águas
E então falámos
E então dissemos
Aqui vivemos muitos anos

 

A noite passada um paredão ruiu
Pela fresta aberta o meu peito fugiu
Estavas do outro lado a tricotar janelas
Vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
Cheguei-me a ti disse baixinho: “Olá!”

 

O sol inteiro caiu entre os montes
E então olhaste
Depois sorriste
Disseste: “Ainda bem que voltaste!”

Deus recebeu-me nos seus braços.

Pode haver pessoas a quem isto soe bem. A mim nem um bocadinho. Estar nos braços dum gajo? Lamento, mas não. O gajo entusiasma-se e depois como é?

Por vezes ouço reclamar que deus não devia ser representado sempre como branco. É muito mais raro ouvir reclamar que deus podia ser mulher.
Ó mulheres deste país, não vos faz confusão ter um gaijo omnipotente por aí?

Reparem no pormenor:

Deusa recebeu-me nos seus braços.

Soa-me estranho, sem ser a deusa ou uma deusa. Deusa imaterial e impessoal não existe. Por mim tudo bem, prefiro a deusa material e pessoal.

É desta que os os homens vão deixar de confundir a nossa espécie com o planeta, o mundo ou o universo?
Quando estamos em risco como espécie é duma vaidade enorme achar que as minhocas, as árvores, as pedras e oceanos estão em risco.
As coisas são muito mais do que a utilidade que têm para nós.
Isso do salvar o planeta ou ambiente é uma fantochada, se não for dito como deve ser: queremos salvar o nosso ambiente, porque o que nos mata, não mata necessariamente mais nada.
Quando há uma pandemia que mata o escaravelho da uva ninguém liga nenhuma.
Se houver uma pandemia que nos mate a todos, o tal de planeta liga tanto como nós ligamos à extinção do escaravelho da uva.
E o universo então é algo que escapa à nossa capacidade de compreensão, e qualquer tentativa de definição é errada.

As segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
sabem a segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
tal qual segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
sinto-as segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
como se fossem segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
sempre segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
continuam segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
apesar das segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
que são segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
olho as segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
passam as segundas terças quartas quintas sextas sábados domingos
e de cada vez que respiro é ar novo que me entra nos pulmões