Aceitas porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as nações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócio do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Que faremos nós, filho, para que a vida seja mais que cegueira e cobardia?

Hôtel

Ma chambre a la forme d’une cage
Le soleil passe son bras par la fenêtre
Mais moi qui veux fumer pour faire des mirages
J’allume au feu du jour ma cigarette
Je ne veux pas travailler je veux fumer

o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

Al Berto

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

Analfabeto politico

Serenidade és minha

Raul de CarvalhoVem serenidade (Mário Viegas)

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

José Gomes FerreiraChove (Mário Viegas)

Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama

mais

O passado e o futuro

Eis a lógica economicista do absurdo.

A frase que nada informa e só insinua, gera mais cliques, torna-se mais popular (viral como se diz) e por isso merece mais destaque.

A frase que descreve o que se passou, fica para segundo plano. Não gera cliques nem receita.

A informação primeiro travestiu-se de entretenimento e agora tornou-se um produto que se vende como se fosse margarina.

O consumo sabe como vender. As pessoas por si precisam de pouco.
A ideia não é produzir o que as pessoas querem, mas sim que as pessoas queiram tudo o que se produz.

Criar necessidades é simples. É só jogar com os mecanismos emocionais.

acabaram-se as palavras


Gastão CruzAs palavras (Mário Viegas)

as palavras somos nós