Ando em arrumações

ia deitar fora LPs que tenho guardados
ao pegar neles alguns que estão ligados a momentos da minha vida despertaram-me essas memórias
a primeira reação foi pensar em não deitar fora, não querer perder as memórias e o passado
o sentimento de perda, seja do que for, é dificil para os humanos

depois começaram as perguntas
a ligação fisica é necessária? o pegar no Lp fisico desperta uma emoção muito mais forte do que ouvir um mp3 com a mesma capa?
estou mesmo a perder alguma coisa?

o que sou hoje é o resultado das minhas experiências anteriores.
elaborar sobre isso é tão interessante como elaborar sobre o sol nascer. é assim, e pronto.

relembrar ou reviver o passado, é uma história completamente diferente
estaremos a hipotecar ou a substituir o futuro?
ou a usar o passado para melhorar o que aí vem?
porque não viver no passado em vez do futuro?
é melhor parar por aqui e ir trabalhar, senão o futuro do final do mês pode ser chato 🙂
(resumindo para despachar, as memórias servem para quê?)

6 comments on “Ando em arrumações

  • Isabel Pires says:

    A ligação física ao objecto é pouco importante para mim, daí desfazer-me com facilidade das coisas que “não me servem”. É libertador para mim.
    Julgo que é uma questão muito pessoal, relacionada com as características de cada um e com a vida que se tem e teve. Mas não é imutável.
    Não me parece que a maior ou menor ligação física ao objecto se traduza numa ligação directa em maior ou menor importância que se dá às memórias.

    “as memórias servem para quê?”

    Para nos salvarem ou para não morrermos.
    Tanto num sentido mais básico e literal – e é pouco referida essa importância da memória – como no significado mais abrangente de viver (ser mais do que sobreviver).
    Dois apontamentos ou exemplos da importância da memória de cada um desses sentidos.
    Quando perdemos a memória de forma pronunciada e “definitiva” (devido a acidentes ou a doenças como o alzheimer), ficamos indefesos face a muitos perigos porque a memória-medo é uma das que fica comprometida.
    Por outro lado – e agora para além da sobrevivência – a memória do prazer também faz/contribuiu para que mais momentos felizes aconteçam. O que é prazeroso não resulta só de impulsos (ao que parece, o impulso até representa uma pequena quota parte, mesmo no prazer que associamos mais a resultado de impulso). A memória do prazer é um estímulo muito importante para fazermos coisas que nos levam a sentir bem. Isto não é assim tão distante do que tu disseste, embora possa parecer 😉

    • Luis says:

      > É libertador para mim.
      Essa é uma das teorias, que reviver o passado retire tempo e espaço a novas experiências e fica-se menos livre.

      Que memórias de experiências servem para evitar as más e e procurar as boas, aplica-se a todos os animais. O que leva a outra pergunta 🙂 Esta coisa que chamamos consciência ou pensamento, é exclusivo nosso entre os animais? E as maçãs?

      • Isabel Pires says:

        Pois, toda a vida animal tem memória, mais complexa nos animais que têm sistema nervoso 😉

        (Um àparte, a expressão “memória de elefante” tem mesmo razão de ser; os elefantes têm um sistema nervoso bastante complexo e por isso a memória é muito hábil.)

        Sobre a memória do mundo vegetal, há tempos encontrei Isto:
        https://www.arkopharma.com/pt-PT/memoria-das-plantas

        Quando disse que é libertador para mim desfazer-me de coisas, referia-me a espaço e nalguns casos a tempo e dinheiro (quando o ter coisas que não uso leva a que tenha de cumprir passos que a lei determina, por exemplo).
        O “espaço” (aspas porque é mais do que espaço físico) deixado pelo que nos desfazemos, não tem de ser obrigatoriamente ocupado.

        Às vezes faço este exercício/questiono-me quando estou em maré de arrumações e de me desfazer de coisas: se eu precisar de ter objectos para não me esquecer de alguém ou de determinada fase, experiência… não será fraca a importância que essas pessoas e vivências têm para mim?

        • Luis says:

          Há memórias e respostas que resultam dum pensamento, duma decisão, outras são quase maquinais, como tirar a mão duma chapa quente.

          Esta semana disse algo parecido com a tua ultima frase, sobre uma questão de trabalho. Queriam saber se se podiam desfazer duma coisa. Pensei que há mais de um ano que nem eu nem ninguém precisou daquilo para nada, ou seja não ser aquilo um dia fará falta, mas a verdade é que não faz falta.

  • Ana Gilbert says:

    talvez as memórias não “sirvam”, apenas “sejam”
    e sim, penso que há outras formas de consciência, além da humana… e que a consciência humana não seja apenas racional. A pele é também consciência

    • Luis says:

      e a auto-consciência, o pensamento? que raio é isto para além de reações bio-fisico-quimicas que acontecem no cérebro?

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