crónicas de garagem

para ouvir no silêncio
quando as luzes se apagam

Povo que lavas no rio
E que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão

Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não

Fui ter à mesa redonda
Beber em malga que esconda
O beijo de mão em mão

Era o vinho que me deste
Água pura, fruto agreste
Mas a tua vida não

Maquinismo

A máquina serve o homem ou o homem serve a máquina?

Tenho um milhão de manuais de instruções de como aprender a lidar com todo o tipo de maquinaria.
Quantos manuais há para as máquinas aprenderem a lidar comigo?

Os homens mudam os gestos, o ritmo, os hábitos, até o rumo do pensamento conforme a máquina que usam.
Muito mais que as máquinas.
Que não pensam. São máquinas.

Lembrei-me do que mandei para o DN Jovem quando era putezinho:
‘O cidadão, encontra-se perante uma ciência sacralizada, impotente para questionar as opções que lhe surgem como factos inelutáveis. A crítica, competência exclusiva de especialistas, é-lhe retirada. A ciência criadora transforma-se em técnica irresponsável onde “tudo o que pode ser feito será feito”. É urgente, pois, que o cidadão assuma o controlo da tecnologia, que, a um ritmo crescentemente vertiginoso, toma posse de actos e pensamentos.’

‘É no desequilíbrio entre a esfera individual e a colectiva, entre a produção e a forças que a controlam, que poderemos encontrar a raiz do deserto emocional em que nos encontramos. Uma sociedade individualista e pragmática, que acredita no existente e não no possível. Onde o indivíduo é expropriado até de si próprio.’

Eu mudei. O mundo mudou. Já ninguém escreve assim.

Nada mudou. Podia escrever tudo isto hoje sem alterar uma virgula.
Alguém questiona como vai ser o próximo iphone ou a próxima ‘maravilha’ tecnologica?
O que nos puserem à frente vamos usar.

deu-me para as memórias

e fui buscar os primordios destas coisas do blogues.
11 de Janeiro de 2006, chamava-se na altura Escrito na areia

Acertei algumas “escrevo para me ouvir e eventualmente me recordar” aqui estou a recordar-me 15 anos atrás!

errei noutras “nunca criei um blog porque para tal é preciso paciência e persistência. Não tenho nem uma coisa nem outra em quantidade suficiente”

outras continuo a praticar fervorosamente: “Ao beber nunca esquecer de aplicar firmemente os lábios na borda do copo”

e que no dia 9 de janeiro falava da luz do café onde não há música
do metro cheio de escuridão e de noites, que engole contabilistas como relógios enferrujados
afundar-me no escuro metro com uma criadinha a jorrar lírios cortados de café e música
trocar os dedos por línguas sedentas de bocas

morrer e voltar num dia claro

 

e ri-me bem ao remexer num dia em que estive a remexer em mails

Estive a remexer em mails