Igualdade de género e de classes

Eu não estou mas a minha empregada está, ela abre a porta
Não lhe posso dizer, tem que falar com o gerente

Quando ouvi a primeira frase, lembrei-me do estranho que soaria ouvir ‘o meu empregado está, ele abre a porta’.
Só haverá igualdade de géneros quando deixar de ser estranho.

Mas existe uma outra desigualdade, de que é proibido falar, a de classes.
Que só deixará de existir quando for tão honrado fazer trabalho manual de limpeza como ser gerente de uma qualquer coisa.

De cada um segundo as suas capacidades. A cada um segundo as suas necessidades.

Uma música minha

Quando era puto tinha uma rotina de verão.

Em tróia até entardecer no ferry de volta para setúbal.

Subir a ladeira das fontainhas de costas ou à corrida.

Chegar a casa, beber do pacote de leite do frigorífico.

Tomar duche e ir para os claustros do convento, onde todos os anos havia um ciclo de cinema, aproveitando a bancada do festival de teatro.

Num desses dias enquanto bebia o leite ao pôr do sol, passou na rádio uma coisa linda, a primeira vez que ouvi o Jan Garbarek.

Num desses dias, no intervalo do filme, tocou esta música.

Keith Jarret, Jan Garbarek
My song
Keith Jarret, Jan GarbarekMy song

Fiquei maravilhado. Parecia que falavam, o piano e o saxofone.

Foi dificil descobrir que musica era, nos tempos pré-soundhound. Corri as discotecas (casas que vendiam discos) todas.
À e tal é uma música com um piano e saxofone à conversa. E descobri.

Carta dum contratado

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue…

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por ai…

Eu queria escrever-te uma carta…

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
Por que é, por que é, por que é, meu bem
Que tu não sabes ler
E eu – Oh! Desespero! – não sei escrever também!