Apaches

Os apaches são tão sanguinários como os ocidentais. Mas mais puros. Orgulham-se da sua bravura.
Nós somos cruéis apesar dos escrúpulos. Afastamos a morte como afastamos a vida. Receamos e combatemos tudo o que é natural com as nossas máquinas, a nossa lógica, os nossos papéis e artifícios.

Several Species of Small Furry Animals Gathered Together in a Cave and Grooving with a Pict

Memórias

Lembro-me de ter visto nas ‘noticias’ imagens do Assange no dia a dia, a tentar andar de skate, etc.
Nada me espanta, que a embaixada envie esses vídeos, que a imprensa os publique e que nada disto espante.

O giro é que hoje também me lembro de ver nesses vídeos passagens da vida intima e sexual do Assange.
Mas não sei se me lembro por ter visto ou sonhado. Ambas são memórias de coisas que vivi.

Se quiser saber se sonhei ou vi, tenho que ir ver outra vez os vídeos que nem devia ter visto.

Contrários

Adoro o sol. Ir no carro, sentir o calor no corpo e a música a tocar, nunca falha. Próxima paragem paraíso ou assim.

Adoro a noite. O melhor de mim é à noite e o melhor das cidades é a noite. Gosto de vaguear por Lisboa, quando já não há nada.

A noite é o beijo na língua. É o universo que sempre procurei. À noite somos todos animais.

A noite é o sonho e pesadelo dos que dormem. A noite pertence a quem não volta.

DotanHome

O tu

Há uma categoria de autores, como o Jorge Palma, a que chamo os cantores do tu.
Cantam muito na segunda pessoa. Mas, claro que não é destinado a uma pessoa.

Se não sabe onde está a mãe ('Onde estás tu mamã'), a melhor maneira de saber não é gravar um disco na expectativa que ela talvez ouça passado um ano, e lhe responda.

Quando o Jorge Palma quer dizer algo a uma pessoa, chega ao pé dela e diz: Jaquim, tu assim e assim.
O tu escrito numa letra é para toda a gente e ninguém em particular.

Mas é da natureza humana juntar os pontos, fazer associações e até um coxo numa cadeira de rodas vai achar que "tu quando corres" é destinado a si, porque tem uma mente que corre. Desconfio que seja esse o truque dos cartomantes.

O tu tem algo de mágico, de ligação emocional. Quando o palma canta 'encosta-te a mim', fico com vontade de me ir encostar ao ombro. Eu e mais dois milhões de portugueses, vai ser um ombro concorrido 🙂

A coisa também funciona com o nós. 'A gente vai continuar/Enquanto houver estrada pra andar/Enquanto houver ventos e mar' é para mim, sou parte do nós, com ele estrada fora.

E agora a água tónica no gin, uma música do ele.
Gosto tanto tanto que em tempos fiz uma montagem, mesmo que não tenha ficado grande coisa.

Acabou-se a angústia dos seus passos em volta
Dum amor com que ele apenas sonhou
Pela primeira vez tinha o futuro nas mãos
Abriu a janela e voou