• 13 Abr 2019

    O tu

    Há uma categoria de autores, como o Jorge Palma, a que chamo os cantores do tu.
    Cantam muito na segunda pessoa. Mas, claro que não é destinado a uma pessoa.

    Se não sabe onde está a mãe (‘Onde estás tu mamã’), a melhor maneira de saber não é gravar um disco na expectativa que ela talvez ouça passado um ano, e lhe responda.

    Quando o Jorge Palma quer dizer algo a uma pessoa, chega ao pé dela e diz: Jaquim, tu assim e assim.
    O tu escrito numa letra é para toda a gente e ninguém em particular.

    Mas é da natureza humana juntar os pontos, fazer associações e até um coxo numa cadeira de rodas vai achar que “tu quando corres” é destinado a si, porque tem uma mente que corre. Desconfio que seja esse o truque dos cartomantes.

    O tu tem algo de mágico, de ligação emocional. Quando o palma canta ‘encosta-te a mim’, fico com vontade de me ir encostar ao ombro. Eu e mais dois milhões de portugueses, vai ser um ombro concorrido 🙂

    A coisa também funciona com o nós. ‘A gente vai continuar/Enquanto houver estrada pra andar/Enquanto houver ventos e mar’ é para mim, sou parte do nós, com ele estrada fora.

    E agora a água tónica no gin, uma música do ele.
    Gosto tanto tanto que em tempos fiz uma montagem, mesmo que não tenha ficado grande coisa.

    Acabou-se a angústia dos seus passos em volta
    Dum amor com que ele apenas sonhou
    Pela primeira vez tinha o futuro nas mãos
    Abriu a janela e voou