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Há coisas a mais

Que por decreto parlamentar se reduza tudo sem excepção ao seu milésimo. Para retomarmos aquilo que os antigos chamavam de ‘apreciar’.

Estou farto dos decretos para lamentar. Farto dos quinhentos canais de televisão, farto dos dois mil amigos do facebook, dos duzentos álbuns para sacar da net, farto das quinhentas revistas para ler no tablet, farto dos 43 mil oitocentos e vinte e oito posts, farto das noticias do mundo todo, farto das setenta e oito marcas de iogurte e cento e doze champôs, farto dos milhares de coisas novas com que me emprenham todos os dias.

Tanto de novo sabe-me cada vez mais a velho. Estou farto, porra! Passa-se por cada vez mais e cada vez se passa menos. É pôr um like apressado no que não se lê, no que não se ouve, no que não se vê. Deram-nos um controle remoto para fazer zapping de manhã à noite. E não dá para parar, estamos no meio do Tetris, a escolha é jogar ou levar com as peças na cabeça.

Porquê?

Lembro-me do coro de indignação perante as decapitações do Isis.
Sei das sanções impostas ao Irão, por fazer parte do eixo do mal.

Ashraf Fayadh vai ser decapitado na Arábia Saudita por alegadamente ter abandonado a sua religião. Dizem que o seu livro de poemas apelava ao ateísmo. Não teve direito a advogado de defesa, nem a ser ouvido pelo juiz.

Só no mês passado a Arábia Saudita executou assim 47 pessoas. A maior parte por decapitação pública.
E no entanto faz parte do reino do bem. Ainda há poucos meses a Arábia Saudita passou a pertencer ao conselho dos Direitos Humanos da ONU. Não vejo sanções, nem sequer censuras.

Abdullah bin Abdul Aziz Al-Saud

Na Arábia Saudita quem roube é punido com amputação das mãos. Uma mulher não pode conduzir ou falar com homens que não sejam da sua família. Quando morreu o rei Abdullah (na imprensa nunca o tratam por ditador), as Nações Unidas expressaram pesar dizendo, entre outras coisas boas, que sob sua liderança, a Arábia Saudita também se tornou um importante contribuinte de questões humanitárias, ajudando a melhorar a vida de pessoas em todo o mundo.

E eu só pergunto porquê? Porque faz a Arábia Saudita parte do eixo do bem? O que é o mal e o que é o bem?