• 19 Jul 2016

    Acontece quando ao almoço não me canso de ser homem

    Chegou um estranho individuo. De fato e lambreta, podia ser mais um ricaço relambido. Mas não, o ar perdido e a carteira de miúdo, puseram-me a pensar nos que conheci. Nos que morreram, nos que enlouqueceram e nos que foram.

    No final do almoço numa mesa ao lado falavam em algo relacionando che guevara e pablo neruda e no sonho duma América latina unida. E olhei para a sensaboria sem fim em que me transformei. Mas sinto que sou o mesmo.

    ‘Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
    com fúria e esquecimento,
    passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
    e pátios onde há roupa pendurada num arame:
    cuecas, toalhas e camisas que choram
    lentas lágrimas sórdidas.’

    ‘Todavia, seria delicioso
    assustar um notário com um lírio cortado
    ou matar uma freira com um soco na orelha.
    Seria belo
    ir pelas ruas com uma faca verde
    e aos gritos até morrer de frio.’