• 08 Jun 2015

    Que faria eu, senhor!

    Uma palavra

    Para conquistar as tormentas
    seria capaz de muito
    até de sofrer.
    Mas para me perder no vento dos teus lábios
    que faria eu, senhor!

    Cruzar oceanos, caminhar montes e vales
    derrubar as árvores mais fortes.
    Tudo seria pouco.
    Qualquer proeza é mesquinha
    face à luz que ferve nos teus olhos.

    Meu deus, faz-me uma montanha tão alta
    que lhe alcance o coração

     

     

     

     

     

     

  • 08 Jun 2015

    Pele

    Pele
    A pele esbate-se num gesto final
    liberto-me da escravidão dos dias
    (somos todos escravos da vida)
    Pairo simplesmente
    lá fora o néon
    circula com certeza matinal
    caos de cimento e tédio

     

     

     

     

     

     

  • 08 Jun 2015

    Glória

    Glória

     

    Ah! A glória de pintar
    frescos de sonho
    no silêncio crispado de raiva
    deixando as raízes quebrarem a crosta
    e florescerem nos dedos

     

     

     

     

     

     

  • 08 Jun 2015

    Vem

    Vem
    Vem.

    Vem comigo
    Cansados de amor
    mergulhemos juntos na noite
    no silêncio dos amantes

    amor amor amor
    repete comigo
    as palavras que nos dão paz.

     

     

     

     

     

     

  • 08 Jun 2015

    Porta fechada

    Porta fechada
    A porta fechada
    A cara voltada
    O chão se aproxima

    Do murro arrependido
    Do elevador não caído
    O corpo se aperta

    E eu não sou já de mim
    sou do gosto que não dei
    e de mim se tomou

    E não sei que mais tarde
    serei das águas do Tejo
    ou doutro rio mais aquém

    Não terei trejeito, nem geito sequer
    poderei quanto muito rimar
    com quem, como eu, tal não puder:
    Uma cor, uma pedra ou talvez um pomar.

     

     

     

     

     

     

  • 08 Jun 2015

    Sabes o que custa

    Sabes o que custa calar
    o que não se consegue calar
    conter o incontível.

    Estranho mundo este
    onde os olhos rolam pelo chão
    e os amores não ateiam fogos imensos
    A loucura apodrece
    e cheira mal

    Porra!
    que os sonhos aconteçam
    que a fúria fresca das manhãs
    tenha lugar

    Sol deus maior
    que os corações expludam
    que braços se encontrem
    que a vida seja vida e não apenas morte

    Álcool deus menor
    leva-me lá para longe
    leva-me e esquece-me
    eu não estou
    não existo.

    (escrito em 10 minutos na autoestrada por alturas de palmela, rápido e banal)

     

     

     

     

     

     

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  • 08 Jun 2015

    Diário sem nada de especial de um dia qualquer

    Não suporto que amanhã seja mais um dia. Que hoje seja um prolongamento de agora.

    Vou-me abandonar à minha sorte. Acreditar no que não creio.

    Vejo uma senhora de moral alevantada por oposição às tetas abandonadas

    Grande é a embarcação que se dá a navegar. (Obrigado pelo barco…)

    Quais os pés mais bonitos? Os atrofiados pelos sapatos ou os marcados pelo chão?

    No actual contexto sócio-económico, a taxa de amizade está muito abaixo dos valores normalmente considerados satisfatórios.

    Vou dizer um lugar comum. A vida é uma espiral. Tudo se repete, só que num ponto diferente.

    Escrevo com o pão que comi numa garrafa partida: A Humanidade está com hemorróidas.

    Se o pensamento é o meu rio, a consciência é o seu dique.

    Vontade: Mosaico de anéis e pregos.

    Detesto gente cuja linguagem é a do deve e do haver. Em que a vida se alinha pelas colunas do débito e do crédito. Com cinco casas decimais.

    Dançando no orvalho do tempo. Estátuas perdidas.

    Ouvido na barbearia: “Doer às vezes é coisa boa. É sinal de que se vive.”

    As máquinas não morrem e se morressem tornar-se-iam humanas. O maquinismo e a tecnologia é a busca da ilusão da imortalidade.

    Desde que comprei o relógio que ando atrasado.

     

     

     

     

     

     

  • 08 Jun 2015

    Uma palavra

    Uma palavraHá uma palavra que persigo
    foi-se por lá desterrada e morta
    viúva e fria como os sargaços
    que longe daqui dão à costa
    todos os setembros pela manhã
    como a folha pesarosa de ser outuno
    e da brisa mole de entardecer.

     

     

     

     

     

     

  • 08 Jun 2015

    Para viver

    Para viverPara viver
    livros e folhas
    são tudo quanto preciso
    Porque o primeiro reconhecimento
    é o que me mereço
    nestas folhas perdidas

    E se por acaso outra coisa recordo
    da sua falta
    á minha mão retorno
    sem nunca de lá ter partido

    Outro eu de outro precisa
    para de eu mesmo se apartar
    mas se fosse possível ver claro
    distinto desta massa indistinta
    um pouco mais á frente
    esse outro que vejo
    esse mesmo sou eu