• 08 Jun 2015

    Diário sem nada de especial de um dia qualquer

    Não suporto que amanhã seja mais um dia. Que hoje seja um prolongamento de agora.

    Vou-me abandonar à minha sorte. Acreditar no que não creio.

    Vejo uma senhora de moral alevantada por oposição às tetas abandonadas

    Grande é a embarcação que se dá a navegar. (Obrigado pelo barco…)

    Quais os pés mais bonitos? Os atrofiados pelos sapatos ou os marcados pelo chão?

    No actual contexto sócio-económico, a taxa de amizade está muito abaixo dos valores normalmente considerados satisfatórios.

    Vou dizer um lugar comum. A vida é uma espiral. Tudo se repete, só que num ponto diferente.

    Escrevo com o pão que comi numa garrafa partida: A Humanidade está com hemorróidas.

    Se o pensamento é o meu rio, a consciência é o seu dique.

    Vontade: Mosaico de anéis e pregos.

    Detesto gente cuja linguagem é a do deve e do haver. Em que a vida se alinha pelas colunas do débito e do crédito. Com cinco casas decimais.

    Dançando no orvalho do tempo. Estátuas perdidas.

    Ouvido na barbearia: “Doer às vezes é coisa boa. É sinal de que se vive.”

    As máquinas não morrem e se morressem tornar-se-iam humanas. O maquinismo e a tecnologia é a busca da ilusão da imortalidade.

    Desde que comprei o relógio que ando atrasado.

  • 08 Jun 2015

    Para viver

    Para viverPara viver
    livros e folhas
    são tudo quanto preciso
    Porque o primeiro reconhecimento
    é o que me mereço
    nestas folhas perdidas

    E se por acaso outra coisa recordo
    da sua falta
    á minha mão retorno
    sem nunca de lá ter partido

    Outro eu de outro precisa
    para de eu mesmo se apartar
    mas se fosse possível ver claro
    distinto desta massa indistinta
    um pouco mais á frente
    esse outro que vejo
    esse mesmo sou eu

  • 08 Jun 2015

    Pequenas coisas que me vão passando pela cabeça

    No outro dia uma educadora de infância parou o carro no meio da ponte, saiu, chegou-se à amurada e saltou. Segundo parece causou engarrafamentos monstros. Não é preciso muito para atrapalhar o trânsito. Basta um carro parado.

    — // —

    Morri quinta-feira ao fim da tarde
    a autópsia foi clara
    causa da morte: saudades tuas

    — // —

    Renasci junto a um oceano branco
    levado por dois braços de mar salgado

    — // —

    Não, não quero ser livre
    quero ser cativo de amores
    preso a paixões e tormentas tamanhas
    Não, não quero ter ideias
    só a paz de ver o mar
    e as coisas mudas a sorrir para mim

    Não, não quero ser contente
    quero a raiva de todo o mal

    — // —

    A vida é uma coisa engraçada que rola na minha mão.  Das vezes que a consigo ver de fora é giro olhar para as coisas. E tudo parece estranhamente igual. O que é que eu tenho a ver com tudo isto? As pessoas movem-se de um lado para outro, fazem coisas, mexem-se como se movidas por uma necessidade necessária. Para que o mundo não pare e continue a girar como antes. Quando a única finalidade que faz sentido é sermos felizes. Quantas destas necessidades necessárias nos fazem felizes?
    Fecho os olhos. Devo representar a farsa de uma máquina, não porque acredite no que faz a máquina, mas porque a rosca não pode viver sem um parafuso.

    — // —

    Era interessante saber a largura dos dias
    e sabermos com antecedência se cabemos neles
    para não ficarmos com os pés de fora

    — // —

    Preciso de uma droga que me reduza a pena. A vida é-me demasiado grande. E os meus pés tão pequenos. Os olhos vazios.
    Ou eu me levantei ou o mundo encolheu. Estou a bater com a cabeça no tecto do mundo.

    — // —

    Sou normal,
    na maioria que sou em mim
    estou perfeitamente na média

    — // —

    Pássaros surdos loucos
    De amor encantados

    — // —

    Alguém escreveu sobre a mágica tarefa de viver, a mim ocorre a vã tarefa de viver

    — // —

    O corpo estava acompanhado. Mas ninguém se sente só com o corpo.

    — // —

    Alguém me perguntava com admiração. A beleza agride-te.
    Sim. A beleza deve ser violenta.

    — // —

    Pensamentos dum ouvido ao redor duma laranjeira

    — // —

    Hóstia babada de ranho
    Cona ungida de pano

    — // —

    Aos céus sobe a espada que nos mata
    e ficamos a vê-la subir ao alto
    tão do chão
    tão lentamente

    — // —

    O erasmo era feio e tinha mau gosto para chapéus.

  • 08 Jun 2015

    Estou farto

    Estou FartoEstou farto
    desta ausência entre lençóis
    do sono que há
    no pesadelo que me sou
    não levo veias nem vinho nem deus
    só as unhas dentro dos bolsos
    e o lugar do salgueiro

    Ser mais terra que nunca
    pedra de calçada com pés por cima
    ter um buraco na sola
    e haver mijo no chão
    tenho nojo das manhãs
    húmidas e solenes

    Quando da noite me faço homem
    a manhã da noite se faz dia
    e eu não caibo nos restos
    da noite que sobrou

    Parto
    e não há aqueduto que eleve
    as águas que correm baixinho
    como se fora choro de erva.

  • 08 Jun 2015

    TU

    enlouqueces-me maravilhas-me atrapalhas-me apaixonas-me cegas-me confundes-me. Tu inspiras-me.
    Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu …..

    Quero tanto de ti e tão próximo que anseio que fosses o ar, o chão, as paredes, tudo.

    Que tudo o que tocasse fossem os teus braços. Que tudo o que sentisse fossem os teus lábios.

    Como quando fecho os olhos e tudo o que não vejo és tu. Como quando não durmo e tudo o que sonho és tu.

    Contigo não consigo respirar. Sem ti não consigo viver.

    Quero estar tão dentro de ti que nem a luz do dia exista para mim. Quero abraçar-te tanto que todo o mundo colapse e desapareça num pequeno ponto entre os meus braços.

    Toca-me com as tuas mãos. Faz-me desaparecer com a tua pele. Sufoca-me na tua língua. Arrasta-me pelo ar com o teu perfume. Mata-me de vez.

    Odeio-te porque existes. Odeio-te porque não estás aqui. Amo-te tanto.

    De repente tomo consciência da tua ausência e faz-se noite. Porque não me respondes quando te falo? Porque não te sinto quando estendo o braço? Porque te escondes?

    TU
    se fosses chuva, do céu só cairiam pérolas … E até o chão gritaria de prazer