Ao sair do boteco, todo embriagado, o bêbado andando na rua, toca o interfone de uma casa e pergunta:
– Seu marido tai?
Uma mulher responde:
– Está, quem quer falar com ele?
– Xá pra lá, brigado.
Chega em outra casa e toca o interfone novamente:
– Seu marido tai?
Outra mulher responde:
– Está no banho, quem quer falar…
– Brigaaaaaado, pooooode deixar.
Na outra casa…
– Bom dia, seu marido tai?
– Está… Vou chamá-lo…
– Não, não é preciiiiiiso, responde o bêbado.
– Na outra casa:
– Oi, seu marido tai?
A mulher responde:
– Não, mas já deve estar chegando.
O bêbado responde:
– Então, faz favor, olha aqui pra fora e vê se sou eu!

Isto foi das primeiras coisas que escrevi. Foi há muito tempo, mas podia ter sido num dia qualquer.

Um homem igual a muitos outros homens
sai de um emprego igual a muitos outros empregos
e entra numa multidão igual a muitas outras multidões
uma criança chora
um velho pede
no metro acotovelam-se solidões
insultos no engarrafamento
compra o jornal no quiosque da esquina
um avião caiu nas Filipinas
1700 trabalhadores da Fiat foram despedidos
um jovem suicidou-se cortando os pulsos
combate-se no sul de Angola
numa taberna dois homens lutam
chega a uma casa igual a muitas outras casas
diz á mulher igual a muitas outras mulheres
que foi um dia igual a muitos outros dias

O maluco hoje pôs-se a reler

A estupidez é uma cicatriz.

No lugar onde o desejo foi atingido, fica uma cicatriz impercetível, um pequeno enrijecimento, onde a superfície ficou insensível.
As cicatrizes podem criar carateres duros e capazes, podem tornar as pessoas estúpidas.

A violência sofrida torna a boa vontade em má. E não apenas a pergunta proibida, mas também a condenação da imitação, do choro, da brincadeira arriscada, pode provocar estas cicatrizes.

Dialética do Conhecimento (Thodor Adorno e Max Horkheimer)