Tabus

Ouvido na mesa ao lado:

Não bebe, não fuma, não… não…

 

 

 


6 Comentários

  • Isabel Pires

    Detesto ouvir isso.
    Assim como outras alusões do género, das quais detesto com todas as minhas forças, esta, quando é usada com o fim de machucar alguém: “Deve ter/tem, falta de qualquer coisa…”

    • Luis

      não deixa de ter piada que se tenha tanto pudor em dizer as palavras da coisa mais natural e que move meio mundo

      e será que o tabu também contribui para que tenha peso e que se use para provocar, tal como dizes

      • Isabel Pires

        Antes de responder a essa questão do tabu, a como interpreto e me posiciono…

        Vinha agora no carro, com o rádio ligado, e os locutores referem-se a um qualquer episódio relacionado com o futebol (a minha cabeça é péssima a apanhar as coisas da bola… tudo demasiado complexo :)), em que alguém se irritou com o facto de outro alguém ter gesticulado, e se calhar irritado, num jogo, e que o Abel Xavier terá dito se agora tem de se obrigar a ver os jogos com algemas nas costas. E o locutor brinca com a situação e diz “Abel Xavier com algemas nas costas… será que ele está a pensar numa cena com algemas nas costas… o malandreco!”
        É um exemplo de alusão ao tal “departamento”, e que tem graça. Não vasculha na vida de ninguém, não machuca, não é ofensivo… perfeitamente inócuo. Também acho graça se fizerem brincadeiras destas comigo.

        Quero com isto dizer que também se pode brincar com este terreno, como com todos. Normalmente a diferença está, como em todos os “departamentos” da brincadeira, se tem por objectivo ofender ou até só ser desagradável, às vezes de uma forma quase ténue de intimidação, a querer deixar a pessoa enrascada, sem resposta.
        Isso é sempre de baixo nível, mas é mais de baixo nível quando se usam referências ao que se pressupõe os outros fazerem ou não fazerem quando a pele se encontra com outra. E é mais de baixo nível porque quando a pele brinca com outra, essas brincadeiras não acontecem em público, e o que acontece no privado e ainda por cima é íntimo, não se pode provar nem é suposto ser discutido com quem não é implicado.
        Ora, quando alguém quer machucar e usa expressões como aquela que disse detestar com muita força (e eu já ouvi mais do que uma vez discussões ligadas a trabalho em que uns dizem para outras, de forma mesmo feia, aquilo do “deves é ter falta de ‘qualquer coisa’…), está a reduzir o campo de argumentação do outro e a querer feri-lo no campo da intimidade. Normalmente com plateia, e ai daquele que não se ria, que fica fora do grupo, o que torna as coisas mais perversas.

        Sim, é tabu e é um bem que o seja. (Só não é um bem se tiver que falar disso com um médico, por exemplo, e não conseguir por causa do pudor, etc.)
        Este tipo de intimidade não é para andar aí a ser espalhada. Nem falada em locais públicos, nem com pessoas mais próximas, nem com amigos… É uma intimidade para se viver e isso implica encanto, mistério, o bonito só porque sim… e as explicações e conversas descarnam a intimidade, remetendo-a para a ginástica ou coisa parecida.
        Mesmo com quem se tem essa intimidade, é bom manter essa “áurea”. (Quando oiço coisas deste género “ah, nós discutimos tudo, o que um gosta e não gosta…”, etc (nessa área íntima), na minha cabeça surge logo “rica coisa… será que têm uma lista a seguir? :)”)
        Manter essa áurea de mistério remete para algo intocável, que não é para conversar ou explicar, algo que se aproxima do conceito de sagrado. Daí considerar um bem ser tabu.

        Por causa do final da resposta que deste à inconfessável.
        Acho normal e bom não haver expressão adequada, ou haver dificuldade em encontrar uma, que se refira às possibilidades de encontros de uma pele com outra pele e às brincadeiras que acontecem. Acontecer, é mesmo isso. Fazer, praticar… errado, sem sentido. (A não ser que se tenha de cumprir um plano escrupuloso para fazer bebés.)
        É a parte da vida que é para acontecer. Verbalizar tudo, só estraga.

        • Luis

          ok bola não é contigo 🙂

          Não foi o abel xavier. Ouvi isso, mas apreciando o kinky, não incluo gajos com algemas nas costas, portanto adiante 🙂

          O abel xavier para além de ser o africano mais louro que conheço, ficou nos anais do futebolês como o gajo que analisou em profundidade o significado da palavra treinador. Treinador é aquele que treina a dor.

          A proposito dos tabus e dos pruridos. Ali em cima ia escrever “o preto mais louro”. Depois pensei, preto pode ser ofensivo. E ele é mesmo preto? Fui ao google. Ele é de Moçambique. Ia escrever o moçambicano mais louro. Depois pensei há moçambicanos brancos e louros de nascença. Caraças, ou tenho que pensar menos ou preocupar-me menos, ou ter mais tempo. Sei lá. 🙂

          “Manter essa áurea de mistério remete para algo intocável, que não é para conversar ou explicar, algo que se aproxima do conceito de sagrado. Daí considerar um bem ser tabu.”

          Há ai um lado de razão, mostrar o tornozelo é um mundo em que o resto é mistério. Quando o tabu é desejo.

          Mas há outro lado, o lado da culpa, o lado da repressão de sentimentos etc e tal. Quando o tabu é medo.

          A verdade é que não há verdade nisto, nas pessoas e sentimentos não se pode fazer regras.
          Vamos navegando. Às vezes com mais rochedo, às vezes com mais mar.

  • Inconfessável

    As pessoas, em geral, nos restaurantes, não têm cuidado nenhum. Machucam pessoas e tantas vezes com os nomes completos e às vezes até conhecemos quem está a ser machucado e não está presente.

    Não Luis, não tem graça nenhuma esse tipo de pudor exactamente, como tu dizes, por esse pudor ainda ter mais peso no que se quer insinuar.

    • Luis

      Bom vamos lá por partes 🙂

      Primeiro o achar graça, era no sentido de achar curioso, e não de rir. Como quem diz, engraçado que os pinos são todos azuis e o do canto é amarelo. Ninguém se ri ao olhar para o pino amarelo.

      Segundo, naquela frase há duas questões.
      Uma o insultuoso que pode ser aquela frase, concordo plenamente com isso.
      A segunda tem a ver com o tabu que envolve o sexo.

      A pessoa emperrou ali não foi por causa de poder ser insultuoso, foi porque uma das consequências do tabu é que não há palavra adequada para todas as circustâncias e audiências.

      Posso dizer a qualquer pessoa: vamos beber um copo?
      Mas se disser vamos foder? Uns consideram vulgar e grosseiro.
      Se disser vamos fazer amor? Outros vão achar lamechas.
      Fazer sexo, parece que uma tarefa a fazer, como fazer sopa.
      Copular é simplemente ridiculo.
      Vamos rolar no palheiro, e que se lixe 🙂

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