Quando dói

Quando se tem dores toda a gente se trata e tem cuidado.
A dificuldade é continuar a tratar e cuidar quando não dói. E é preciso.


3 Comentários

  • Isabel Pires

    (É provável que este comentário seja interpretado como estando ao lado ou mesmo fora do assunto, mas a mim é o que me faz lembrar em primeiro lugar. Para além doutras questões.)

    É comum dizer-se que os (verdadeiros) amigos conhecem-se na prisão e no hospital. Ou seja, sabemos quem são os nossos amigos quando estamos na mó de baixo. Quando dói, para ir buscar ao texto.
    Não me revejo nesse “princípio” e tento contrariá-lo.
    A compaixão é relativamente fácil de acontecer, até por razões sociais ou de comportamento do grupo.
    Já a empatia é mais difícil de desenvolver quando não tem subjacente o sofrimento. (A compaixão pode gerar empatia, mas não é desta linha a que me refiro.)

    Os amigos, as “minhas pessoas” (que são as pessoas em quem posso confiar e de quem gosto muito, independentemente de existirem ou não laços de obrigação), conhecem-se/acontecem/estão/entram e querem entrar, na normalidade, na alegria e nas dores ou tristeza. Mas acontecem primeiro na normalidade. Ou estão no rasto da normalidade e o resto – o lado bom e mau da vida – é uma continuidade.

    E isto não é fácil porque implica regozijo com as lutas e vitórias com as quais às vezes não nos identificamos, mas o facto de serem desenvolvidas e alcançadas por alguém nosso, está acima disso tudo. (Em abstracto: é mais fácil o regozijo desinteressado pela alegria dos outros ou mostrar compaixão pelas suas dores?)
    Também implica cuidado em linha de continuidade, aquele cuidado que é menos visível para fora e por isso é pouco ou nada premiado naquele sentido das palmadas nas costas que massajam o ego. (É um interesse desinteressado. Faz-se e está-se porque se gosta e quer o bem daquela pessoa, e isso faz-nos sentir bem. E interesses que possa haver, ficam noutro plano porque o que está lá em cima é esse cuidado pelo respeito da vontade e da individualidade, e do tempo ou ‘ritmo respiratório’.)

    Alguém que aparece apenas na altura das ‘dores’ (só se lembra de santa bárbara quando faz trovões, dela ou de outros) e que nunca se manifesta, pergunta, aparece… não cuida portanto, no resto da vida, na normalidade (e há normalidades que são dores), não conta para mim naquele sentido de “as minhas pessoas”. Fica no lugar das obrigações, seja de que tipo for. É burocracia, é escritório; não é afecto. E esta burocracia é bastante comum; mais ou menos, todos temos uma certa dose dela, que recebemos e que cumprimos.

    “A dificuldade é (continuar a tratar e) cuidar quando não dói. E é preciso.” – Para o lado da “alma” ou do “coração”, também.

  • Luis

    Luis

    O meu mal era mais prosaico, quando o rei faz anos o meu olho esquerdo arranha. Ponho umas gotas e passa. Se continuar a pôr durante uns dias mesmo depois de parar de arranhar, só me chateia outra vez dali a 1 ou 2 anos. Mas é preciso que as ponha mesmo quando o olho não me lembra e obriga

    Mas é claro que se pode aplicar a tudo na vida. Muita gente só se preocupa com as coisas quando o mal está feito, e por vezes até já é irreversivel. Até lá vão empurrando com a barriga para a frente enquanto podem.

    • Isabel Pires

      Encontrei agora a frase que há dias queria deixar aqui e que de certo modo está ligada ao que disse atrás.
      «Todos somos capazes de sentir o sofrimento de um amigo. Aceitar com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada.» Oscar Wilde

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