Polititicamente incorrecto

Está na moda dizer-se que andar de bicicleta é que é bom. Que faz sentido encher-se a cidade de ciclovias e lugares de estacionamento só para elas.

Quem diga o contrário é crucificado mesmo que o absurdo seja óbvio.
Usar a bicicleta como meio de transporte em Lisboa faz tanto sentido como andar de trenó.

Ao contrário dos países de onde se quer importar esses modelos, Lisboa está cheia de colinas. Cá a maioria das pessoas mora a grande distância do trabalho. Pelo caminho muitos vão buscar as mercearias e e os filhos.
Passa pela cabeça de alguém ir de bicicleta do centro de Lisboa para o Cacém ou Seixal? No inverno chegar ao trabalho alagado de chuva e no verão de suor. Depois faz o quê, toma banho no lavatório da casa de banho?

Por causa de meia dúzia de gatos que usam a bicicleta ao fim de semana para passear e de outra meia dúzia com profissões liberais, poucos horários e dinheiro para morar no meio de Lisboa temos que gramar todas as alarvidades.

Passo por esta rua com muita frequência. Nas centenas de vezes que por lá passei, só vi 1 (uma) bicicleta a passar. Os carros passam continuamente.

Isso não impediu uma inteligência rara de lá criar uma ciclovia com um murete que em caso de avaria ou acidente gera o caos, porque deixou haver espaço para passar ao lado.

Uma das maneiras de se fazer calar quem diga que o rei vai nu, é chamarem-lhe troglodita. Que andar de bicicleta é ser-se civilizado e educado.

Desculpem, mas não. Para a esmagadora maioria das pessoas ir trabalhar de bicicleta, não é educado, é burro.


2 Comentários

  • Isabel Pires

    O que é preciso é que os transportes públicos de Lisboa melhorem mais (estão bastante melhores de há uns anos para cá, mas não chega) e que os preços sejam mais acessíveis. Se os transportes públicos não compensarem, quer em termos de tempo como de preço, as pessoas vão continuar a usar outras soluções (não a bicicleta, claro).

    Por outro lado, se a intenção de incentivar o uso da bicicleta é promover a actividade física, já existem boas zonas para isso e outras poderão ser adaptadas ou beneficiadas.
    Estou a lembrar-me da zona de Belém e daquele corredor/paredão junto ao mar que acompanha boa parte do trajecto do comboio até Cascais.

    Como dizes, a geografia de Lisboa não se presta a ir para o trabalho de bicicleta, nem a maior parte dos empregos tem balneários. E mesmo que tivessem não acredito que fizessem isso por sistema, qualquer que fosse a meteorologia, porque há a logística da roupa para se vestir a seguir (pouca gente trabalha de farda, que fica no emprego), porque é preciso um mínimo de conforto que compense o esforço.

    Estou a lembrar-me de um exemplo que tem alguns pontos de semelhança.

    O meu ginásio tem treinos antes do trabalho, a começar às sete da manhã. Toda a gente que vai àquela hora, ou mora ao pé ou desloca-se de carro (e até podia melhor ir de bicicleta), entra equipada para o treino e leva um cabide com a ‘roupa de sair’ para ir directo para o trabalho ou alguns vão ainda antes deixar os filhos na escola. Nas trocas de palavras sobre a logística e gestão de tempos, percebe-se que isto exige bastante organização de véspera sobretudo por parte dos que têm crianças, cargas horárias pesadas, etc., mas que em parte é contrabalançada com o conforto de que se pode usufruir.
    Estou a tentar imaginar como resolveríamos essa parte se fossemos de bicicleta para o trabalho e como isso se tornaria um calvário…

    As pessoas que têm condição física para fazer bastantes quilómetros de estrada em bicicleta, com o impacto das várias condições meteorológicas, serão novas e muitas delas terão filhos pequenos que têm de levar à escola e trazer à tarde. Como fariam com a bicicleta?

    Há medidas que são tomadas para resolver um problema e outras para criar uma necessidade que seja possível preencher com as condicionantes da realidade. Neste caso, não parece que a medida se encaixe em qualquer das situações.

  • Luis

    Luis

    As cidades se fossem lógicas e racionais não existiam.

    Não deixa de ser curioso que sejam criação de seres que se dizem lógicos e racionais.

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