O vento na pele

Acabei de almoçar e quando voltava ao escritório senti uma brisa no meio do calor.
E pensei que não há nada melhor que o vento na pele.

Mas não posso chegar ao escritório e dizer que não há nada melhor que o vento na pele.
Para não ficarem a olhar para mim tenho que dizer com este calor o vento sabe bem.
Sem falar na pele.

silence

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Pequenas coisas que me vão passando pela cabeça

No outro dia uma educadora de infância parou o carro no meio da ponte, saiu, chegou-se à amurada e saltou. Segundo parece causou engarrafamentos monstros. Não é preciso muito para atrapalhar o trânsito. Basta um carro parado.

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Morri quinta-feira ao fim da tarde
a autópsia foi clara
causa da morte: saudades tuas

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Renasci junto a um oceano branco
levado por dois braços de mar salgado

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Não, não quero ser livre
quero ser cativo de amores
preso a paixões e tormentas tamanhas
Não, não quero ter ideias
só a paz de ver o mar
e as coisas mudas a sorrir para mim

Não, não quero ser contente
quero a raiva de todo o mal

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A vida é uma coisa engraçada que rola na minha mão.  Das vezes que a consigo ver de fora é giro olhar para as coisas. E tudo parece estranhamente igual. O que é que eu tenho a ver com tudo isto? As pessoas movem-se de um lado para outro, fazem coisas, mexem-se como se movidas por uma necessidade necessária. Para que o mundo não pare e continue a girar como antes. Quando a única finalidade que faz sentido é sermos felizes. Quantas destas necessidades necessárias nos fazem felizes?
Fecho os olhos. Devo representar a farsa de uma máquina, não porque acredite no que faz a máquina, mas porque a rosca não pode viver sem um parafuso.

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Era interessante saber a largura dos dias
e sabermos com antecedência se cabemos neles
para não ficarmos com os pés de fora

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Preciso de uma droga que me reduza a pena. A vida é-me demasiado grande. E os meus pés tão pequenos. Os olhos vazios.
Ou eu me levantei ou o mundo encolheu. Estou a bater com a cabeça no tecto do mundo.

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Sou normal,
na maioria que sou em mim
estou perfeitamente na média

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Pássaros surdos loucos
De amor encantados

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Alguém escreveu sobre a mágica tarefa de viver, a mim ocorre a vã tarefa de viver

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O corpo estava acompanhado. Mas ninguém se sente só com o corpo.

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Alguém me perguntava com admiração. A beleza agride-te.
Sim. A beleza deve ser violenta.

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Pensamentos dum ouvido ao redor duma laranjeira

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Hóstia babada de ranho
Cona ungida de pano

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Aos céus sobe a espada que nos mata
e ficamos a vê-la subir ao alto
tão do chão
tão lentamente

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O erasmo era feio e tinha mau gosto para chapéus.

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Ontem ouvi na prova oral o Alvim a dizer que tinha estado uma hora a discutir se era possível andar com uma pessoa que gostasse do Tony Carreira.

Do que me lembro destas conversas, trocaram-se argumentos e galhofas.

Desde há anos a esta parte, acontece-me cada vez mais mais só encontrar quem não tem opinião, quem desatina com as opiniões contrárias ou quem por causa dos segundos acaba por alinhar com os primeiros.

Acho que deve fazer parte da morte. Vai-se tornando óbvio, morre-se devagarinho.

É sabido, um blogue de sucesso não pode ter só texto.

E para me lembrar de outros tempos.

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