A língua não são palavras

Em tempos estudei inglês no instituto americano. Para além de ter gostado muito, nunca mais me esqueci do elogio dum professor.
Que apanhava mais que as palavras e gramática, entendia a cultura.

Ultimamente tenho lidado muito com malta do Brasil, e tem sido difícil. As palavras que se usam no dia para descrever as coisas nunca são as mesmas que cá. É o banheiro, o café da manhã, a tela, etc etc.
O tratamento por tu, em São Paulo é “você”. No inicio até pensei que era ‘respeito’, mas não. É o que se usa, é o costume.

Ontem recebi um email a agradecer-me a presteza.

As palavras podem ser iguais mas a língua não é a mesma.


4 Comentários

  • Isabel Pires

    Há dias, num transporte de Lisboa, apercebi-me que um estrangeiro estava com dificuldade em tratar de uns assuntos e disponibilizei-me para o ajudar.
    Na conversa fiquei a saber que é americano e que estará por cá durante vários meses para aprender a língua. Quer/precisa de aprender bem português para o que está a pensar fazer.
    Optou por aprender primeiro através da vivência do dia-a-dia e de aulas de conversação em grupo e individuais. Disse-me que a escrita e a gramática com intenção de aprender gramática, virão depois. E isto também porque há tempos, quando aprendeu alemão, fez esse percurso da escrita e regras e só depois o falar, e não lhe agradou por achar mais forçado. Também, teve algum contacto com a língua portuguesa através de convívio com um brasileiro e ficou um bocado baralhado com termos diferentes, como dizes.

    Fiquei a pensar na opção dele. Parece-me ser uma maneira inteligente porque mais natural. Nós aprendemos primeiro a falar do que a escrever e é dessa forma que vamos interiorizando as regras que são necessárias para nos entendermos e as expressões que usamos nas várias situações.

    O sistema linguístico tem um conjunto finito de palavras e de regras que permitem estabelecer a comunicação, mas não se esgota nesse preceituado e está em constante evolução. Basta pensar na alteração da grafia de algumas palavras ao longo do tempo (pharmacia, por exemplo) e na mudança de uso/significado que tem que ver com questões sócio-culturais.
    Sobre este último aspecto estava a evitar deixar aqui o exemplo de broche por causa da conotação sexual, mas é a palavra que agora está a ocorrer-me e é um bom exemplo porque o seu uso não mudou assim há tanto tempo. Por isso falo dele. Lembro-me bem de ser miúda e de se usar a palavra broche para designar uma pregadeira pequena que as mulheres colocavam nos casacos, ou a fechar um lenço ou uma blusa, sendo que esses alfinetes de tamanho maior eram designados por pregadeiras. Com o tempo, o termo broche passou a ter conotação sexual e actualmente se alguém disser esta palavra para designar o tal alfinete, não se livra de pelo menos uns risinhos.
    É engraçado que há um tempo, em conversa com uma brasileira que conheço bem, ela usou a palavra broche para referir o tal alfinete e expliquei-lhe que cá, agora, é interpretado de outra forma. Ela ficou muito surpreendida.

    Como em tudo, também as regras do sistema linguístico podem e devem ser flexibilizadas para se adaptarem às várias situações.
    Por exemplo, ali em cima disse “apercebi-me que” porque estou a escrever num contexto que pede linguagem informal; um linguajar próximo do discurso oral.
    Mas se estivesse a escrever um livro ou algo mais formal, devia dizer “apercebi-me de que”.
    Também era isto que queria dizer naquele post sobre os pontos e vírgulas que está para baixo. Inventou-se a gramática, o léxico, etc. e por isso eles existem, e são importantes para nos entendermos, mas a linguagem não é só isso, como aqui dizes.
    (Agora mencionei aqui porque me parece haver ligação com o tal post.)

  • Luis

    Luis

    E que são estas coisas, as palavras? Olho para isto e vejo riscos pretos sobre um fundo branco.
    Pode ser só sujidade que dura até se passar um pano.
    Limpa só uma página em branco.

  • Isabel Pires

    O limpo e o asséptico não são desejáveis em tudo nem em todas as circunstâncias.

    • Luis

      Luis

      Quando o cirurgião entra de bisturi na mão, dá jeito 😉

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