5 Comentários

  • Isabel Pires

    Pensei no Outono que começou há pouco. (No calendário, não na temperatura.)

    E lembrei-me deste poema:

    Carta de Outono

    Pensarás que não te escrevi antes porque o Verão
    consome a energia da alma com um apetite solar; e
    porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
    palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
    ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
    do espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
    nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
    se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
    anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar;
    agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
    gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e
    sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
    verdes como as folhas perenes do norte. Então,
    ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
    e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
    desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
    desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
    perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
    O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
    neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
    o teu amor gastou-se com um breve brilho de
    isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de Outubro
    e Novembro, arrastando o Outono com os pés, nas planícies
    provisórias de um esquecimento de estações.

    Nuno Júdice | “A Condescendência do Ser”, págs. 50 e 51 | Quetzal Editores, 1988

  • Isabel Pires

    Mas apesar da foto (me) fazer lembrar o Outono, o tempo está de Verão e agora calhou a passar outra vez a vista por este poema:

    O Verão é assim

    O Verão é assim: a masculina e mineral
    e quase táctil vibração das cigarras.
    Não sou apenas eu, também elas
    se alimentam de claridade,
    fogem do escuro.
    Porque o escuro é onde se abrigam
    a calúnia e a usura,
    o escuro é onde a vaidade
    e a demência do lucro acorrem
    ao apelo do mais rasteiro.
    O céu não passa de um imenso
    e vazio buraco negro,
    mas tenho a esperança que o inferno
    conserve ainda activas as fogueiras
    da inquisição, e nas suas chamas
    possam ouvir-se um dia
    esses cães, que tanto abusam do poder,
    rechinar – como as cigarras no verão.

    Eugénio de Andrade | in: Sal da Língua,1995

    • Luis

      Luis

      Outono, qual outono?

      Vamos ter Natal à Brasileira, ó yeah!

  • Maria Papoila

    10

    • Luis

      Luis

      27!

      Normalmente percebo pouco. A excepção feita quando não percebo nada como agora 🙂

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