• 02 Nov 2018

    O que será que será? Que dá dentro da gente, e que não devia

    O que será que me dá
    Que me bole por dentro
    O que será que me dá?
    Que brota à flor da pele
    O que será que me dá?
    E que me sobe às faces
    E me faz corar
    E que me salta aos olhos
    A me atraiçoar
    E que me aperta o peito
    E me faz confessar
    O que não tem mais jeito de dissimular
    E que nem é direito ninguém recusar
    E que me faz mendigo
    Me faz suplicar
    O que não tem medida, nem nunca terá.
    O que não tem remédio, nem nunca terá.
    O que não tem receita.

    O que será que será?
    Que dá dentro da gente
    E que não devia
    Que desacata a gente que é revelia
    Que é feito uma água ardente que não sacia
    Que é feito estar doente de uma folia
    Que nem dez mandamentos vão conciliar
    Nem todos os ungüentos vão aliviar
    Nem todos os quebrantos toda alquimia
    E nem todos os santos
    O que será que será?
    O que não tem descanso, nem nunca terá.
    O que não tem cansaço, nem nunca terá.
    O que não tem limite.

    O que será que me dá
    Que me queima por dentro, será que me dá?!
    Que me perturba o sono, será que me dá?!
    Que todos os tremores vem agitar
    Que todos os adores me vem atiçar
    Que todos os suores me vem encharcar
    Que todos os meus nervos estão a rogar
    Que todos os meus órgãos estão a aclamar
    Que uma aflição medonha me faz implorar
    O que não tem vergonha, nem nunca terá.
    O que não tem governo, nem nunca terá.
    O que não tem juízo


    O que será, que será?
    Que andam suspirando pelas alcovas
    Que andam sussurrando em versos e trovas
    Que andam combinando no breu das tocas
    Que anda nas cabeças, anda nas bocas
    Que andam acendendo velas nos becos
    Que estão falando alto pelos botecos
    E gritam nos mercados que com certeza
    Está na natureza

    Será, que será?
    O que não tem certeza nem nunca terá
    O que não tem conserto nem nunca terá
    O que não tem tamanho

    O que será, que será?
    Que vive nas ideias desses amantes
    Que cantam os poetas mais delirantes
    Que juram os profetas embriagados
    Que está na romaria dos mutilados
    Que está na fantasia dos infelizes
    Que está no dia a dia das meretrizes
    No plano dos bandidos, dos desvalidos
    Em todos os sentidos

    Será, que será?
    O que não tem decência nem nunca terá
    O que não tem censura nem nunca terá
    O que não faz sentido

    O que será, que será?
    Que todos os avisos não vão evitar
    Por que todos os risos vão desafiar
    Por que todos os sinos irão repicar
    Por que todos os hinos irão consagrar
    E todos os meninos vão desembestar
    E todos os destinos irão se encontrar
    E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
    Olhando aquele inferno vai abençoar
    O que não tem governo nem nunca terá
    O que não tem vergonha nem nunca terá
    O que não tem juízo

    O que será, que será?
    Que todos os avisos não vão evitar
    Por que todos os risos vão desafiar
    Por que todos os sinos irão repicar
    Por que todos os hinos irão consagrar
    E todos os meninos vão desembestar
    E todos os destinos irão se encontrar
    E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
    Olhando aquele inferno vai abençoar
    O que não tem governo nem nunca terá
    O que não tem vergonha nem nunca terá
    O que não tem juízo


    O que será que será
    E todos os meus nervos estão a rogar
    E todos os meus órgãos estão a clamar
    E uma aflição medonha me faz implorar
    O que não tem vergonha, nem nunca terá
    O que não tem governo, nem nunca terá
    O que não tem juízo

    O que será que lhe dá
    O que será meu nego, será que lhe dá
    Que não lhe dá sossego, será que lhe dá
    Será que o meu chamego quer me judiar
    Será que isso são horas de ele vadiar
    Será que passa fora o resto do dia
    Será que foi-se embora em má
    companhia
    Será que essa criança quer me agoniar
    Será que não se cansa de desafiar
    O que não tem descanso, nem nunca terá
    O que não tem cansaço, nem nunca terá
    O que não tem limite

    O que será que será
    Que dá dentro da gente e que não
    devia
    Que desacata a gente, que é revelia
    Que é feito uma aguardente que não
    sacia
    Que é feito estar doente de uma folia
    Que nem dez mandamentos vão conciliar
    Nem todos os ungüentos vão aliviar
    Nem todos os quebrantos, toda alquimia
    Que nem todos os santos, será que será
    O que não tem governo, nem nunca terá
    O que não tem vergonha, nem nunca terá
    O que não tem juízo…