• 04 Abr 2018

    A pensar

    Sou ateu. No entanto reparo que a maior parte dos meus princípios morais são os mesmos da Igreja Católica.

    Talvez não seja tão ateu como penso que sou.
    Porque sendo criado dentro duma Igreja, há coisas que ficam para sempre.

    Um ateu criado como Budista, é mais próximo dos membros dessa religião, ou de mim?

    Ou seja, um ateu é religioso no dia a dia, nos comportamentos.
    A única diferença é que abdica da graça de pensar que no fim disto tudo vai ter uma recompensa.

     

     

     



  • 22 Abr 2018

    Polititicamente incorrecto

    Está na moda dizer-se que andar de bicicleta é que é bom. Que faz sentido encher-se a cidade de ciclovias e lugares de estacionamento só para elas.

    Quem diga o contrário é crucificado mesmo que o absurdo seja óbvio.
    Usar a bicicleta como meio de transporte em Lisboa faz tanto sentido como andar de trenó.

    Ao contrário dos países de onde se quer importar esses modelos, Lisboa está cheia de colinas. Cá a maioria das pessoas mora a grande distância do trabalho. Pelo caminho muitos vão buscar as mercearias e e os filhos.
    Passa pela cabeça de alguém ir de bicicleta do centro de Lisboa para o Cacém ou Seixal? No inverno chegar ao trabalho alagado de chuva e no verão de suor. Depois faz o quê, toma banho no lavatório da casa de banho?

    Por causa de meia dúzia de gatos que usam a bicicleta ao fim de semana para passear e de outra meia dúzia com profissões liberais, poucos horários e dinheiro para morar no meio de Lisboa temos que gramar todas as alarvidades.

    Passo por esta rua com muita frequência. Nas centenas de vezes que por lá passei, só vi 1 (uma) bicicleta a passar. Os carros passam continuamente.

    Isso não impediu uma inteligência rara de lá criar uma ciclovia com um murete que em caso de avaria ou acidente gera o caos, porque deixou haver espaço para passar ao lado.

    Uma das maneiras de se fazer calar quem diga que o rei vai nu, é chamarem-lhe troglodita. Que andar de bicicleta é ser-se civilizado e educado.

    Desculpem, mas não. Para a esmagadora maioria das pessoas ir trabalhar de bicicleta, não é educado, é burro.

     

     

     



  • 25 Abr 2018

    Censura e Macartismo

    Liberdade de expressão não é só saber que não sou preso, é saber que posso dizer a minha opinião sem sofrer represálias.

    Uns rappers alemães ganharam recentemente o prémio Echo, o maior da Alemanha da Indústria musical.

    A letra diz coisas como:
    Aqueles Sírios violaram a tua rapariga, cabra

    Fode-me e eu fodo a tua mulher grávida
    e depois fodo a tua mãe, a cabra refugiada

    Até aqui tudo bem. Depois meteram a pata na poça, ao escrever:
    Os corpos mais definidos que um prisioneiro de Auschwitz

    A máquina da censura começou a mexer-se. Foram acusados de anti-semitismo e de ódio aos judeus. Com medo das consequências os rappers desmultiplicaram-se em desculpas e explicações.

    Não serviu de nada. Não só o prémio foi retirado como o extinguiram por completo. Consideram que o nome do prémio ficou de tal modo manchado pela frase “Os corpos mais definidos que um prisioneiro de Auschwitz” que será necessário um novo começo e um novo nome para o prémio.

    Acusar os refugiados Sírios de serem violadores, pode-se. Dizer que se vai foder a mulher grávida dum refugiado, pode-se. Dizer que se vai foder a cabra refugiada que é mãe dele, pode-se.
    Mas ao fazer uma comparação com o corpo dum prisioneiro de Auschwitz, fica-se lixado para o resto da vida.

    Há muitos exemplos desta censura. O Mel Gibson esteve vários anos sem poder trabalhar e a carreira nunca mais recuperou. Curiosamente este facto, que já esteve na Wikipédia, foi retirado.

    O Lars von Trier foi expulso de Cannes e banido por sete anos, por uma brincadeira, nem chegou a ser delito de opinião.

    Helen Thomas a mais reputada correspondente da Casa Branca, foi despedida por ter dito numa pergunta feita na rua que os israelitas deveriam voltar para os seus países de origem. A Wikipedia diz simplesmente que ela se reformou.

    Há inúmeros casos destes, e não há mais porque a malta sabe e tem medo e respeitinho. Na música, no cinema, no jornalismo, sabe-se que se pode dizer tudo, excepto pôr em causa Israel e os Judeus.
    O castigo será tanto maior, quanto maior for a voz dessa pessoa. É só por isso que posso falar à vontade. A censura só se preocupa em calar quem seja ouvido. Assim deixam passar a sensação de liberdade, que na verdade não é.

    https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/04/premio-alemao-echo-sera-extinto-apos-premiar-rappers-acusados-de-antissemitismo.shtml

     

     

     



  • 29 Abr 2018

    Sou troglodita a dobrar, pelo menos

    Há coisas que não me entram na cabeça, que não consigo deixar de achar absurdo.

    Se houver um cão abandonado ou perdido, vejo milhares de partilhas e campanhas para lhe arranjar um sítio onde ficar. Não acho isso necessariamente mal.
    O que acho mal é que para as centenas de pessoas abandonadas, a dormir na rua ao frio e à chuva, não existam campanhas e partilhas.

    O que não percebo é que dar um pontapé num cão levanta um coro de indignação e um montão de vídeos no Facebook a denunciar a brutalidade.
    Mas se der um pontapé no gajo que está à minha frente ninguém liga. Quanto muito terei direito a um comentário de café: estava ali um gajo que de repente sem motivo nenhum, vira-se e deu um pontapé no outro.

    Isto é aberrante porque julgo que as pessoas vêm muito antes dos animais, que é preferível matar 10 cães a cortar a perna duma pessoa.
    Os defensores dos animais não dizem explicitamente que os animais devem ter tanto direitos como os homens. Mas muitas vezes tomam posições em que os põem à frente dos homens.
    E fazem-no com uma sanha tal, que como no caso das ciclovias, se torna difícil dizer que o rei vai nu.

    Publica o Nuno Markl nas inevitáveis “redes sociais”:
    “Na venerável Faculdade de Direito de Coimbra, as novas leis de defesa dos animais foram debatidas… Professores académicos, em cuja academice eu defeco; são criaturas desprezíveis e trogloditas que representam com clareza o complexo de inferioridade nacional: às vezes somos tão pequenos que só conseguimos sentir-nos maiores diminuindo os alvos mais fáceis. Senhores professores, ide para o c#%*lho.”

    Terá o Nuno Markl nalgum momento futuro uma publicação tão sentida como esta, mas desta vez a defender os direitos dos homens?
    Fiz uma pesquisa rápida e a única outra indignação que encontrei, foi contra a censura. Tinha sido barrado de fazer likes no Instagram.

    Acho que o que o motivo é que se tem pena dos animais, olha-se para eles e pensa-se ‘coitadinhos’.
    Já dos homens não temos pena. Os homens não têm aquele olhar, nem nos lambem a mão. Consciente ou inconscientemente acha-se que quem dorme na rua é porque é drogado, preguiçoso ou burro. Que quer ou merece dormir na rua.

    Se lhes cai uma bomba em cima é porque são maus. Se cair um prédio é porque são imprevidentes.
    Os animais, não. Os animais são inocentes, fofos e precisam de nós.

    É preciso pensar que também os homens são inocentes e precisam de nós.
    Mesmo quando não são fofos.