12 comentários sobre “

  1. Primeiro.
    Vou ter em atenção o seguinte conceito de ódio: “O ódio é um sentimento intenso de raiva e aversão. Traduz-se na forma de antipatia, aversão, desgosto, rancor, inimizade ou repulsa contra uma pessoa ou algo, assim como o desejo de evitar, limitar ou destruir o seu objectivo.”

    Segundo.
    Quando já vivi a experiência ou há algo que me liga ao que está em discussão, prefiro falar do que sei de mim.
    Isto para dizer que tenho consciência de ter vivido duas situações relativamente afastadas no tempo, mas que não vou especificar aqui do que se trata, em que o ter conseguido atingir o patamar do ódio permitiu-me “salvar-me” e muito provavelmente salvar. A última utilização do verbo “salvar” é o contrário de não matar no sentido literal. (Qualquer pessoa é capaz de matar sem ser em legítima defesa.) Como é que o ódio me protegeu? Permitiu que saísse das situações, que alterasse profundamente o percurso. A indiferença não chegava para isso porque me deixava no morno ou em estado de meia anestesia. O levar-nos mais depressa que dizes, Luís, pode significar isto.

    Durante anos pensei muitíssimo sobre a questão do ódio, julgo que com a vontade de encontrar uma explicação para mim e há tempos escrevi isto: “O ódio, que tradicionalmente está do lado dos maus, em certas doses e em determinadas circunstâncias, tem um efeito protector e é detonador da tomada de decisão. Porque às vezes a indiferença não chega para seguir em frente. O ódio, tal como a tristeza, faz-nos bem.”
    É curioso que a palavra ódio tem quase sempre um efeito assustador no outro (até escrevi aquelas frases no blogue e também aí percebi), mas se a substituirmos pelos equivalentes “aversão”, “raiva”, “detestar imenso”… soa a mais macio, tratando-se do mesmo.

    Estou novamente a pensar no ódio levar-nos mais depressa… Sim, leva sempre mais depressa. Até pode ser a única forma de nos levar, para o bem e para o mal.

    Não é bom sentir ódio, mas em situações extremas ou quando a insatisfação, desencanto e atentados aos princípios e ao mais fundo de nós já galgaram o nível máximo de resistência, é preferível, sim.

    Não sinto orgulho nisso e podia omitir o ter vivido essas situações de sentir ódio, mas entendo dizê-lo porque a realidade também é feita destes meandros mais obscuros e julgo que o nosso lado humano também se ergue à conta do admitir as nossas fragilidades e aspectos menos positivos.

    O amor leva-nos sempre mais longe. E é também por isso, pelo amor nos levar sempre mais longe, que o ódio nos leva mais depressa. Comigo foi. Por mim e pelos outros.

    De vez em quando penso na ligação entre amor e ódio, mas não centrada nos relacionamentos de amor/casal, penso numa óptica mais abrangente… E o que acabei de dizer nos parágrafos anteriores são “conclusões” que já tomei para mim.

    Não gosto da ideia que às vezes me chega aos ouvidos de num relacionamento/casal o ódio levar ao amor. As vezes que ouvi esta ideia referiam-se a amor como equivalente a sexo. Não gosto da ideia de ódio misturada com sexo, embora saiba que pode “resultar” momentaneamente. Também por esse lado o ódio pode levar lá mais depressa, mas longe não leva de certeza.

    Em Outubro de 2012, Manuel António Pina em entrevista à Anabela Mota Ribeiro, disse: “Costumo dizer uma coisa: o amor é a bondade que se aplica a tudo. É a bondade, é a beleza. O amor é um conceito só. O amor é o principal veículo de comunicação. De maneira que o amor ou a bondade é tudo o que temos. Memória é tudo o que temos, palavra é tudo o que temos, e as palavras são a forma de podermos, eventualmente, tocar a fímbria do amor e da memória.”

  2. Inconfessável disse:

    Só senti ódio uma vez, mas também me levou mais depressa.
    Estou completamente de acordo com o que a Isabel disse sobre o ódio. A mim também me salvou, não sei, duvido mesmo, que tenha salvo o outro.
    O amor leva-nos sempre mais longe se o soubermos exprimir e exprimir bem. Há quem não saiba amar bem por não o saber exprimir.
    Pessoalmente, o amor tem de ser exprimido mais por actos do que por palavras, embora essas também sejam necessárias.

      • Inconfessável disse:

        Estás enganado.
        As palavras são para serem utilizadas e é bom ouvir. se só forem palavras é que é o diacho.

        • Luis Rodrigues disse:

          talvez não tenhas reparado qiue disse “precisa”
          ou seja se não for diito, não sabes se existe, ou seja são só palavras, ou seja estamos de acordo

      • Luís, é tão verdade isso que disseste que o amor quando precisa de ser dito é uma merda. E isso até começa a ser assim antes de se verbalizar, quando a interrogação ainda só está na cabeça.

        Há dias li uma entrevista do psiquiatra José Gameiro e fixei muito bem esta passagem: “Gosta-se porque se gosta, ama-se porque se ama. Quando amamos alguém, não sabemos muito bem porquê. Quando deixamos de amar, arranjamos 30 razões para dizer porquê.”

        Deixo o link para a entrevista, para o caso de alguém querer ler: http://anabelamotaribeiro.pt/jose-gameiro-2015-201574

  3. Isabel Pires disse:

    Mais duas coisas que ontem não tive tempo de escrever. Não sei se são comuns à maioria ou a muitas pessoas.

    Pode-se odiar sem tentar que algo de mau aconteça àquela pessoa, sem desejar o mal para ela e sem sentir qualquer regozijo com algum mal que lhe aconteça. Até se pode desejar o bem e haver satisfação por isso.
    Comigo foi assim em ambas as situações e creio que o seria se mais existissem.

    Esta é mais uma dúvida que ainda não consegui esclarecer para mim.
    Quando se odeia, odeia-se para sempre? Que a porta fica fechada para sempre, fica. Para mim.
    Quando nos afastamos do que nos provoca ódio, deixamos de pensar nesses termos, embora continuemos a rejeitar qualquer possibilidade de aproximação, esta rejeição tem o nome de ódio? Parece encaixar-se no conceito. Talvez a diferença resida na forma menos violenta com que se expressa.

  4. Inconfessável disse:

    Nunca desejei mal a ninguém.
    A porta fica fechada para sempre. Sem ódio, com o tempo, mas também sem nenhuma possibilidade de aproximação.
    Não chamo ódio à não aproximação. Ódio foi o que senti, visceral.
    Estamos a falar, Isabel, em termos pessoais. Não faço a mínima ideia como sentem os outros.

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