19 comentários sobre “

  1. Trazes aqui um tema lindíssimo.

    Sei que a poesia, pelo menos parte, já a tinha lido nos teus posts mais antigos e julgo que desagregada… Prova de que às vezes vale a pena pegar no que estava lá atrás e arrumar de outro modo.

  2. Inconfessável disse:

    Li isto há muito pouco tempo.
    Giro que o tenhas ido buscar agora.
    Quando aqui venho, perco-me com os post mais antigos que nunca li

    • Luis Rodrigues disse:

      Outro repensamento.

      Hoje não conseguia escrever isto, nem escrever nada de jeito. As coisas à minha volta mudaram, eu mudei.

      E eu posso ser coisas diferentes? O que me diferencia dos outros é que sou diferente dos outros.
      Mas quando sou diferente de mim no passado, continuo a ser eu.
      Se for diferente de mim no presente, sou outro.
      Acho que a regra é essa.

      Se fizer um transplante da mão, a mão passa a ser minha e o todo continua a ser eu.
      Mesmo que vá trocando peça atrás de peça.

      Qual é o ponto em que o eu transplantado passa a ser outro. Onde está o “eu” neste corpo?

      Quem gosta de lirismo, dirá: No coração.
      Mas sabem perfeitamente que isso é uma brincadeira, porque se fazem transplantes de coração e nada muda.

      Outros dirão na alma, e que não está no corpo.
      Não sabem onde está, dirão que não está em sitio nenhum. Ou seja é uma forma de não responder. Esta aceito. Quem não sabe, tem que aceitar uma resposta que diz ‘não sei’.

      Outros dirão no cérebro. O que tem a vantagem de não poder ser desmentido porque a gente ainda não sabe trocar a mioleira.
      Mas não é coisa que se goste de dizer. Primeiro porque torna a coisa muito terra a terra, racional. Tira-nos a esperança de algo mais. Torna-nos máquinas.

      Quando era puto e andava nos bares em estado etílico, era interessante ver a reacção à visão, que tinha, da humanidade enquanto sopa. E esta visão da humanidade cerebral, residente numa rede neuronal em que o amor é um incidente físico-químico, faz de nós sopa. Na melhor das sortes uma sopa de letras.

      • Inconfessável disse:

        Parece, segundo o neurologista Alexandre Castro Caldas, que o botox que põem para tirar as rugas de expressão atrasa (e às vezes retira quase por completo) as emoções, como se o que deveria aparecer na face tivesse influência no que se sente.
        Não é líquido que os transplantes não modifiquem o ‘eu’ e mesmo as cirurgias plásticas e não me refiro apenas às de beleza.

        • Isabel Pires disse:

          Não se estará já a falar de desordens do foro psiquiátrico, nomeadamente de transtorno de despersonalização, que pode ter várias causas, algumas químicas e outras não?

          Estar-se-á a partir do princípio que o eu é imutável?

          Gosto de me pensar como uma matrioska. Tanto no sentido dos vários papéis que desempenho, como nesses “diferentes eus” que vou sendo ao longo da vida. Mesmo que aquelas bonecas briguem de vez em quando, o que é certo é que elas acabam por se encaixar umas nas outras.

        • Inconfessável disse:

          Não Isabel, está-se a falar de estudos feitos em pessoas ditas normais.
          Pessoalmente, não estou a partir do principio de um eu imutável.
          Também tenho vários, felizmente.

          Com 18 anos, tive um desastre de automóvel em que parti vários ossos da face e maxilar.
          Fui operada e fiquei diferente, suficientemente diferente para me não reconhecer ao espelho. Estava à espera de uma cara e via outra.
          Os amigos que me viam com regularidade e que não sabiam do desastre não me reconheciam. Os conhecidos que apenas me viam de vez em quando reconheciam-me.
          Demorei meses a habituar-me à nova cara e modifiquei-me, aliás, o cirurgião plástico já me tinha avisado que iria acontecer.

        • Luis Rodrigues disse:

          Inconfessável,
          (comentário 1) Não há nada que não mude por pouco que seja o tal ‘eu’
          Quando parece difícil mudar, não é porque seja difícil, é porque custa controlar para onde se vai.

          Há um ditado ou a assim que diz que até para ficar igual é preciso mudar. Ques e não mudarmos ficamos para trás.

        • Luis Rodrigues disse:

          Isabel,
          A questão é o que é essa tal personalização, se logo a seguir falas de diferentes eus. Deveria ser uma contradição de termos.

        • Luis Rodrigues disse:

          Inconfessável,
          (comentário 2)

          Lá está, mudamos fisicamente, mudamos emocionalmente, mas cotnuas a ser a “inconfessavel” em diferente.

          Imagina que eu mudava e ficava igualzinho em tudo a uma inconfessavel passada ou presente. Não devia mudar de nome e de identidade também? :)

  3. Isabel Pires disse:

    Inconfessável, primeiro quero dizer que não te referenciei naquele último comentário porque o que disse não era dirigido apenas a ti, já que o Luís também abordou a questão. Agora reparo que estava naquele alinhamento de resposta a ti e tinha de me justificar.

    Pelo que me apercebo, talvez não seja apenas coincidência o facto de nos fixarmos neste assunto, um certo questionamento sobre a eventualidade de mudanças importantes, nomeadamente as que têm que ver com a imagem e com alterações no que passamos a não poder fazer, terem impacto no nosso “eu”.

    Também eu, devido a uma situação que não vou especificar, confrontei-me durante algum tempo com o reflexo de uma imagem no espelho que não correspondia ao que até aí a minha memória identificava como sendo eu. Felizmente foi temporário, mas suficientemente forte para abanar a forma como me situava no mundo, que me levava a perguntar quem era eu e com uma vontade grande de saber como outras pessoas lidavam com estas situações, se por dentro aconteciam coisas ‘só’ associadas à imagem. Também foi suficientemente forte ao ponto de me passar rasteiras, o que é materializado na relação com o espelho. De vez em quando, quando sei que há um espelho que tenho de enfrentar, tenho medo de encontrar a ‘outra’.´
    É apenas por isto que já tenho dito, meio a brincar para disfarçar, que tenho uma relação de amor/ódio com os espelhos.

    Se eu fosse cega, ou se fôssemos cegas, ‘interpretávamos’ a situação do mesmo modo, ou seja, ela tinha igual impacto?
    Muito embora pela textura, etc, soubesse na mesma que estaria muito diferente.

    Mais recentemente aconteceu-me estar seis meses sem poder fazer muitas das coisas importantes para mim e tive de reformular rotinas, etc.
    Aí havia menos impacto visual da coisa, quase nenhum. Ou seja, eu para o mundo continuava a mesma.

    Não será que quando falamos desta problemática à volta do eu poder mudar, o que nos ‘aflige’ mais é a forma como passamos a estar para os outros e a questão de corresponder ou não às expectativas?

    O eu tem que ver com identidade. As mudanças normais mesmo que feitas de grandes anormalidades, mesmo as maiores, alteram a identidade em pessoas que não sofram daquelas patologias do foro psiquiátrico?
    Se respondermos sim, como vamos qualificar o efeito das mudanças ‘mais normais’ que vão acontecendo na vida? Haverá uma bitola para definir quando estão a dar cabo da nossa identidade?

    Um assunto interessante para pensar mais, estudar muito…

    • Inconfessável disse:

      Falei da imagem por o Luís ter falado de transplantes.
      Não acho que a identidade mude, obviamente, mas há os diferentes ‘eus’ que vão mudando.
      Quando disse que me modifiquei, não inclui a identidade essa manteve-se, mas modifiquei-me e pelos o que as pessoas diziam fiquei ‘muito melhor’ depois das cirurgias. Portanto, não era a expectativa do que dirão os outros, que talvez tenha acontecido momentaneamente, mas que rapidamente desapareceu.
      Houve uma mudança, isso houve e não foi pequena.
      Lá está, é o reconhecimento da expressão facial.

      Para não haver más transmissões da minha parte:
      «….Curiosamente os participantes (da experiência) que tinham sido tratados com botox demoraram mais tempo a ter uma resposta emocional. Isto pode querer dizer que o corpo regista a emoção, antes do fenómeno se tornar consciente, e projecta a emoção na expressão da face, esta expressão é depois lida (sentida) pelo próprio que com isso informa a consciência emocional»
      Alexandre Castro Caldas in ‘Uma visita Politicamente Incorrecta ao cérebro humano’

      • Isabel Pires disse:

        Luís, já não tenho espaço ali em cima para te responder quando dizes que eu entro em contradição ao falar dos diferentes eus… Revi isto de alto a baixo e lá os encontrei entre aspas, o que quer dizer que os usei em sentido figurado.

        Só existe um eu, claro, com uma determinada identidade, que é a marca diferenciadora que mais ninguém tem. Como se fosse uma impressão digital única aplicada ao sistema neuronal.

        (Ah, quando oiço: “fulano mudou tanto”, digo sempre que se muda pouquíssimo. A tendência é para que em circunstâncias idênticas, se responda de forma também idêntica. Refiro-me a emoções e na relação com os outros. A nível cognitivo é outra coisa.)

        E agora para baralhar mais um pouquinho: um dos grandes desafios actuais nesta matéria é o desenvolvimento de redes neuronais artificiais.
        E então, um dia destes podem chegar a um tal nível de aperfeiçoamento que conseguem reproduzir artificialmente toda a cadeia neuronal de uma pessoa?
        E se em termos técnicos conseguirem fazê-lo, a ética não tem de intervir?

Deixar uma resposta