A neutron bomb

O Arlo Guthrie tem uma música hilariante onde diz que não se pode ter uma coisa sem outra,
‘You can’t have a light without a dark to stick it in.’

Toda a gente está contra o trabalho infantil, contra as condições de trabalho desumanas que se praticam em muitos países asiáticos nas sweatshops.
Muitos trabalham desde os 9 anos, 12 horas por dia, 7 dias por semana por um salário de 20 euros por mês.
Estamos contra, isso é bom e lava a consciência.

No dia seguinte vamos todos contentes comprar um top à Primark por dois ou três euros. Basta pensar um bocadinho para ver como tal é possível. E lá vamos andando com as nossas hipocriasiazinhas. Somos contra, mas tiramos partido disso, e perpetuamos a situação.

A Uber é a mesma coisa. Sabe-se que o modelo de negócio assenta na precariedade laboral, também chamado de dinamismo. No entanto todos os dias é passada a ideia que a Uber é moderna, é o sucesso, é o futuro. Rico futuro.

Como consumidores a gente finge, ou evitamos pensar, que a luz em que vivemos não deixa ninguém ás escuras.

E aqui deitado, vou antes escrever sobre bares e cafés.

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Um comentário sobre “A neutron bomb

  1. Vou começar pelo fim, sobre isso de dizeres que vais antes escrever sobre bares e cafés. Olha que o assunto pode ser sério…
    Há dias o Ívar Couceiro disse isto que me deixou a pensar: “É quase pornográfico, isto que eu vou dizer, mas em certa medida um bar é como um banco. Num banco depositamos o nosso dinheiro, num bar depositamos a nossa vida. E agora que disse isto, sem dúvida que um bar é muito mais importante do que um banco qualquer.” (Excerto deste post: http://naocompreendoasmulheres.blogspot.pt/2017/04/deposito.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+NoCompreendoAsMulheres+(n%C3%A3o+compreendo+as+mulheres)

    “Somos contra, mas tiramos partido disso, e perpetuamos a situação.” – Luís, é verdade, sim. E está a acontecer, a agudizar-se diria, uma questão grave à volta disto e que me parece haver muitos interesses em omitir. Fala-se pouco, acho.
    Quem não quer perpetuar e até se esforça por isso, e está disposto a pagar mais para contrariar a situação, tem cada vez menos alternativas para o fazer.

    Recordo-me de dois exemplos recentes (com cerca de dois anos no máximo) em que isto aconteceu comigo.
    1 – Tinha e ainda tenho por hábito comprar com alguma regularidade naquela que se intitula “a maior marca portuguesa de pronto-a-vestir feminino… (e para a qual) Encorajar a criatividade e inovação e agir com transparência, são alguns dos valores… promover a Responsabilidade Social e respeitar a Diversidade Cultural, são os valores presentes na outra face da moeda.”
    E fazia-o com a convicção que estava a comprar português, a desviar-me da perpetuação desse estado de coisas e a contribuir para o desenvolvimento da indústria do sector, já que a fábrica (ou fábricas, não estou certa) está em território nacional.
    Veio esse dia em que começou a minha indignação. Em casa constato que a etiqueta diz fabricado na Índia.
    2 – Numa loja que entretanto fechou, que se dizia de venda de artigos tradicionais e artesanais portugueses, desde loiças a roupas, brinquedos, comprei um vestido cuja etiqueta diz fabricado na China. Também só vi em casa porque pensei não ser necessário certificar-me na loja acerca da proveniência do artigo.

    Não comi e calei. Ou seja, voltei aos estabelecimentos, apesar da distância e tempo extra e dos aborrecimentos.
    O que me disseram é que o facto de dizer fabricado noutro país não anula necessariamente o ser considerado artigo português, até tradicional, inclusivé exclusivo (o número dois era indicado como tal) porque, disseram, uma coisa é o fabrico da “base” (neste caso o tecido) e outro é a confecção. E acrescentaram que muitas marcas de grande venda funcionam assim, o que passei a verificar com atenção.
    Pois, mas se uma parte é cá e outra é na Índia, na China, na Indonésia… é porquê?
    Lá falei nisso, mas senti-me a navegar num caos de impotência.

    A minha indignação cresceu precisamente por perceber que isto está muito mais minado e que mesmo quando queremos e podemos chegar-nos à frente para contrariar este estado de coisas e não queremos contribuir para a exploração infantil e outras formas de exploração, não sabemos que nichos de mercado não estão contaminados.

    Da Uber não sabia que o modelo assenta na precariedade.
    Ainda não utilizei os serviços, mas sei de quem o fez e ficou muito satisfeito em vários aspectos. Aliás, ainda não ouvi uma opinião que relatasse descontentamento, tanto de quem utilizou cá como no estrangeiro.

    Aqui não sei se a situação será diferente, e falo sem conhecer, apenas como hipótese.
    Se deixarmos de utilizar, não podemos agudizar a precariedade? Ou dizendo ao contrário: se utilizarmos mais, o negócio pode crescer e consolidar-se, e haver tendência para encolher a precariedade?

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