A desinvenção do amor

O Daniel Filipe é conhecido por ter inventado o amor numa qualquer esquina da cidade. Mas não é só isso.
Nem basta, por mais que seja.

Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,
acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor.
Parto amanhã.

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo
doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos
a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria
e apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.

Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,
entre ruídos de música e interferências aladas.

Não basta ser feliz.

Não basta a Primavera.

Não basta a solidão.

Padrão

6 comentários sobre “A desinvenção do amor

  1. O Daniel diz que não basta isso, que

    É preciso cantar, é preciso sorrir,
    encher a escuridão com árvores sem nome.

    Pelo silêncio na planície pela tranquilidade em tua voz
    pelos teus olhos verdes estelares pelo teu corpo líquido de
    bruma
    pelo direito de seguir de mãos dadas na solidão nocturna
    lutaremos meu Amor
    Pela infância que fomos pelo jardim escondido que não teve
    o nosso amor
    pelo pão que nos recusam pela liberdade sem fronteiras
    pelas manhãs de sol sem mácula de grades
    lutaremos meu Amor

    Pela dádiva mútua da nossa carne mártir
    pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial
    pela cidade escravizada pela doçura de um beijo à despedida
    lutaremos meu Amor

    Pelos meninos tristes suburbanos
    contra o peso da angústia contra o medo
    contra a seta de fogo traiçoeira cravada
    em nosso doce coração aberto
    lutaremos meu Amor

    Na aparência sozinhos multidão na verdade
    lutaremos meu Amor

    _____________________________________________

    Também digo que não basta isso, não basta o amor, mesmo que seja muito.
    É preciso amar com coragem.

    Bonita a forma como trouxeste aqui o poema.

    (O que é feito da gaivota que voava ali em cima? Faz falta…)

  2. Ah, entretanto encontrei a gaivota, depois deixei de a ver e agora voltou de novo :)
    Julgo que já percebi que o encontrar ou não a gaivota depende da forma como se entra aqui.

    • Luis Rodrigues disse:

      Pois, no fim de semana estive no porto e ouvi muitas queixas das gaivotas.
      Pensei que esta também me estivesse a faltar ao respeito.

Deixar uma resposta