• 12 Jan 2017

    A desinvenção do amor

    O Daniel Filipe é conhecido por ter inventado o amor numa qualquer esquina da cidade. Mas não é só isso.
    Nem basta, por mais que seja.

    Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,
    acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor.
    Parto amanhã.

    Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo
    doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

    Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos
    a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

    Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria
    e apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.

    Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
    etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

    Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,
    entre ruídos de música e interferências aladas.

    Não basta ser feliz.

    Não basta a Primavera.

    Não basta a solidão.