Diz-se

que liberdade é poder escolher o que se quer
e que quantas mais opções temos, mais livres somos.

Há 10 estradas.
O jaquim pode escolher a que quiser das 10.
O manel pode escolher a que quiser de uma, a do meio.

Se for assim, quanto mais dinheiro e poder se tem, mais livre se é.
O país onde nascemos não é livre para todos. Uns nascem livres, outros escravos, outros assim-assim.

Mas quando se pergunta ás pessoas o que querem na vida, ouve-se muito ‘felicidade’
Muito mais do que se ouve pedir liberdade. E não são a mesma coisa.
Liberdade não é condição necessária para se ser feliz.

Pedaços do que estou a ver (‘Human’), enquanto escrevo isto:
Quando compras algo, não compras com moedas, compras com tempo da tua vida. Trocas por vida.


O que um aborígene australiano nos diz.
Graças a Deus que estas culturas atrasadas foram dizimadas pela nossa cultura ocidental, muito mais sofisticada.
Mais rica e mais livre.

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9 comentários sobre “Diz-se

  1. Primeiro, quero dizer que é dos posts que mais gostei de ler aqui.
    Pelo tema, pela forma como expuseste o(s) assunto(s) e por me levar a pensar muito.
    Pensar que se veio juntar a outro muito pensar sobre isto, que tenho feito nos últimos tempos e que até me tinha levado a começar a escrever, mas deixei a marinar.

    Portanto, a intenção é deixar aqui duas ou três ideias, dúvidas talvez, interrogações, e provavelmente voltar depois.

    Houve um tempo em que utilizava a palavra felicidade para dizer o que queria da vida.
    Agora já não digo. Costumo pensar e dizer isto que é menos polido: “sentir-me bem”.
    (Ainda?) Não sei explicar tudo a que se deve esta alteração, mas sei do que resultou.
    Quis definir felicidade e andei a descarná-la. Sobrou-me uma ideia e uma sensação relacionadas com o sentir bem sem ser objectivado. E tendo estas características, não pode ser um continuum, já que as sensações não são dessa ordem.
    Um dia, numa conversa sobre a felicidade, equiparei-a a essa noção de sentir bem. Explicaram-me, com exemplos, que a felicidade é sentirmo-nos bem, mas não é um sentir bem qualquer. ‘Parece’ que na felicidade existe algo de avassalador que perdura num tempo expressivo.

    Continuei a dizer o ‘sentir-me bem’ para expressar isso que se quer da vida. Porque o que se chama felicidade pode estar numa fasquia muito elevada, o que causa angústia e ansiedade se não se conseguir lá chegar. Funciona como um resguardar da dor.
    Por outro lado, é com muita estranheza que oiço “sou feliz” ou “sou muito feliz”, assim solto de um jacto. A estranheza aumenta quando oiço mencionar a felicidade no plural. Por exemplo, “somos muito felizes”.

    Depois de se provar a dor, diz-se “sou feliz” com a mesma facilidade, mesmo que nos sintamos bem?
    Talvez não, digo.
    A dor pode ser o principal elemento diferenciador no elencar dos ‘patamares’ associados à felicidade.

    Ainda a felicidade, mas saindo da esfera pessoal.

    Até porque ao longo do tempo tenho sido bastante confrontada com isto. Em conversas que surgiram na sequência de viagens que fiz a países onde existem diferenças significativas, económicas e outras, em relação a nós.

    Refiro dois exemplos.

    Há cerca de vinte anos, em trabalho, estive nas ilhas de S. Vicente e de Santo Antão, em Cabo Verde. Contactei de perto com a realidade, o que era imprescindível para definir as coordenadas de um protocolo que veio a concretizar-se.
    Nalguns sítios onde estive, e à luz da nossa realidade mesmo que mediana, podíamos dizer que não tinham nada. Mas ia ouvindo muito à minha volta: “mas são felizes”.
    Mesmo fazendo vinte quilómetros a pé para ir à escola, mesmo que os pés se rasguem nas pedras, mesmo…? Sim, respondiam-me. Porque eles não conhecem mais nada, justificavam.
    Durante uns sete anos coordenei esse projecto, também a receber e a integrar cá pessoas vindas de lá, o que deu para colocar as mesmas questões de outra perspectiva.
    Essa perturbação associada à felicidade que sentiam ou não, foi uma das perturbações que nunca me largou.

    Outro exemplo tem que ver com a minha viagem a Cuba. Há dez anos, talvez.
    Há pouco tempo, numa conversa informal em que se falava destes assuntos, quando eu referi que tinha encontrado muita pobreza, ‘corrigiram-me’ com “Mas eles são felizes assim; não conhecem mais. Se tu não souberes que existe açúcar, não vais desejar açúcar.”
    E a perturbação adensou-se. Então, o ‘mal’ é ter-se, é saber-se que existe mais…? Melhor mantê-los pobres? Entramos num discurso muito perigoso.

    A felicidade e a ambição estão ligadas?
    Se sim, a ambição mais facilmente estraga a felicidade ou impede-a, ou, pelo contrário, aumenta os níveis?

    (Da liberdade ainda não falei.)

  2. Inconfessável disse:

    Atalhando e aproveitando muito do que a Isabel Pires disse:
    acho que a felicidade, aquele instante ou instantes, forçosamente curtos, perduram no tempo e é essa a diferença com o ‘sentir-se bem’. No entanto, é tão bom o sentirmo-nos bem.
    Também acho que a Felicidade nada tem a ver com o ‘ter’. Aliás, tal como pensa a Isabel, o ‘ter’ estraga a felicidade porque para a termos, à felicidade, é necessário paz e a ambição retira-a totalmente.

    Necessito de liberdade, mas acredito que nem todos temos o mesmo conceito de liberdade. Pessoalmente, a riqueza não faz parte desse meu conceito. Um exemplo do dia a dia: para mim, férias é não ter de trabalhar, não preciso de ir para fora, seja esse fora o que for. Para muitos se não houver ‘fora’ não há férias, ou são miseráveis.
    Claro que gosto de viajar, mas não entra no meu conceito de liberdade.

    Conheço o video do ‘Human’. Gosto destas ‘culturas atrasadas’.

  3. (Sobre a liberdade.)

    Pensei muito nesta frase do Luís: “Liberdade não é condição necessária para se ser feliz.”
    Pode alguém ser feliz, sentir-se bem como eu digo, se se sentir privado de liberdade? Creio que não.
    Mas aqui faz muita diferença o ter-se ou não consciência do que se passa. O Manel, que só tem uma opção, até pode sentir-se melhor que o Jaquim, pelo facto de não saber que existe mais oferta e de não ter consciência que pode ter mais. E isto vem dar na tal pergunta que fiz no primeiro comentário: “Então, o ‘mal’ é ter-se, é saber-se que existe mais…? Melhor mantê-los pobres?” E entramos no discurso perigoso.

    Em absoluto, o dinheiro e o poder não trazem mais liberdade. Assim do tipo: nível 30 de dinheiro e poder corresponde a índice y de liberdade.
    Mas até um determinado nível de satisfação de necessidades básicas, de conforto, de acesso a certos serviços… o dinheiro tem grande influência no leque de escolhas disponíveis.

    Isto pode-se voltar tudo ao contrário e argumentar qualquer coisa como “quando eu tinha menos coisas, dispersava-me menos, investia só no essencial e era mais feliz… agora sou um escravo disto.”
    Mas o problema são as coisas, o que se tem, ou a forma como as usamos e a atitude que temos face ao material?
    Se eu tivesse um milhão no banco podia: ficar refém, numa obsessão, a pensar em como aplicar ou gastar; mas também posso pensar que assim estou mais desafogada para uma eventualidade que possa surgir.

    O dizer-se que o dinheiro e outros bens materiais nos escravizam corresponde, muitas vezes, a um discurso demagógico.
    Até quem o diz não anda a passar fome, pois não? Foi à escola, não foi? Tem ferramentas para fazer estes exercícios que nos trazem aqui e por aí fora.

    Sei que alguns trocos de lado podem fazer muita diferença quando há problemas importantes a nível de saúde, e permitem fazer escolhas e comprar mais cuidados. Não vivemos em sociedades igualitárias.
    Esses trocos escravizam?

    Mas sim, concordo que quando compro algo, compro com tempo de vida.
    Isso não se aplica apenas às transacções comerciais.
    A gestão dos afectos, que corresponde a um sistema de trocas, também se faz em tempo de vida.

  4. Inconfessável disse:

    Olá Isabel
    Pessoalmente, acho difícil trocar ideias em espaços como este, apesar, de aqui no Luís, me sentir muito confortável.
    Propositadamente não respondi à tua primeira pergunta ‘melhor mantê-los pobres?’
    No hemisfério ocidental norte, todos os pobres sabem que há mais escolhas que lhes estão vedadas, portanto têm falta de liberdades essenciais. É evidente que não ter liberdades essenciais não dignifica nem dá felicidade a ninguém.
    Deixemos a demagogia para os políticos.

    No exemplo que deste de países, tribos, etnias africanas, mais propriamente, o problema que se deveria colocar não é se os deixamos pobres, mas sim o que é que eles querem que se faça por eles.
    O que os países ricos lhes dizem é o que eles devem fazer para serem iguais a eles ricos. Talvez não seja isso que eles pretendem ser, a não ser os políticos como é evidente.

    Não vale a pena vires dizer que eles não sabem o que querem, por isso não ser a verdade.
    Eles sabem sim, se as pessoas tiverem tempo de os ouvir e de se interessar pela maneira como vivem. garanto-te que as respostas aparecem.
    É claro, que o assunto não é tão simples nem se esgota nesta troca de ideias.

    Estudei e não sou pobre, mas já o fui e com falta de muitos bens essenciais e quando me refiro a bens essenciais estou a falar de comida, sabendo inclusivamente o que era, ou é salmão selvagem e caviar, por exemplo.
    Não fui infeliz.
    Não me venhas com essa conversa que se volta ao contrário só por não estar a passar fome neste momento

  5. Inconfessável, olá, boa tarde!

    Eu não disse, nem quis dizer, que “se volta ao contrário só por não estar a passar fome”.
    O que eu disse foi: “Isto pode-se voltar tudo ao contrário e argumentar qualquer coisa como ‘quando eu tinha menos coisas, dispersava-me menos, investia só no essencial e era mais feliz… agora sou um escravo disto’.” E disse-o como exemplo de alguns comentários e desabafos que vou ouvindo. Não como explicação ou justificação do que penso sobre esta matéria. Não penso assim.
    Até porque a minha relação com o dinheiro e com o que há de material nada mudou ao longo das várias fases da vida, inclusive a minha noção de poupança.

    Para mim, o dinheiro é importante até um determinado nível, porque me permite ter acesso a bens e serviços que me proporcionam bem-estar e conforto, e para me sentir mais segura nessa questão de eventualidades, como problemas de saúde, em que o dinheiro faz diferença nos tratamentos e qualidade de vida.
    Para além disto não me esforço para ter mais. Daí que tenha recusado propostas que, à época, significavam dobrar o ordenado; tal como não entro em certos desafios. E isso não aconteceu, nem acontece, porque o que vinha a mais de dinheiro significava para mim perder vida, eventualmente, levaria a restringir o nível de bem-estar e conforto de que falei. Porque o tempo não é elástico e há desgastes que deixam pouca margem. Ou seja, a minha liberdade ficaria quartada. Passaria a ser o dinheiro e o poder a mandarem em mim e não eu a controlá-los.

    Também não viria dizer que eles não sabem o que querem.
    Aquando daquele trabalho que referenciei, apanhei “algumas, muitas, coisas” sobre isso que são susceptíveis de ter alguma transversalidade.

    Deixo duas perguntas, não restritas a ti, obviamente.
    O dinheiro não traz felicidade, como se ouve muito? Costumam completar com o “mas ajuda”…
    Há alguma relação entre dinheiro e felicidade?

  6. Inconfessável disse:

    Percebo o que dizes em relação ao dinheiro. De o ter ou não em alturas de doença ou velhice. Percebo perfeitamente e quem não estará de acordo contigo.

    Se traz a felicidade ou se ajuda, depende dos casos, Isabel.
    Se alguém der mais importância ao ‘ter’ do que ao ‘ser’, trarará quase de certeza.
    Na pobreza, qualquer pouco é muito e ajudará imenso na felicidade.

    No entanto, mesmo ganhando o salário mínimo, mesmo com crianças a cargo, se a vida familiar correr bem talvez as pessoas possam ser felizes no sentido de se sentirem bem, mesmo que faltem algumas liberdades que o dinheiro dá.
    Também se conhecem casos em que o dinheiro deu todas as liberdades e não fizeram a pessoa feliz.

    É complexo, mesmo que gostasse tanto que tudo fosse mais simples, tão simples como a vida é, apesar de a complicarmos.

  7. Luis Rodrigues disse:

    Vou tentar :)

    ‘é dos posts que mais gostei de ler aqui.’
    Obrigado, se não fosse por algum ciumito, por alguns poemetos que escrevi

    ‘utilizava a palavra felicidade’
    vou pelo mesmo caminho, deixei de usar palavras

    ‘A felicidade e a ambição estão ligadas?’
    mais pelo antagonismo, se calhar. Sei lá, na verdade não faço a mínima ideia, estou a falar por falar.

    ‘aquele instante ou instantes, forçosamente curtos, perduram no tempo’
    nunca me esqueci duma entrevista esquecida do Jorge Palma, dizia ele que na vida procurava esses instantes
    que não se podem repetir (mas que ficam)

    ‘adorei. o post e os comentários.’
    obrigado por nós todos

    ‘O Manel, que só tem uma opção, até pode sentir-se melhor que o Jaquim, pelo facto de não saber que existe mais oferta e de não ter consciência que pode ter mais’
    Já viste que dás como certo que saber que se pode ter mais, e não se ter, é mau?

    ‘O dizer-se que o dinheiro e outros bens materiais nos escravizam corresponde, muitas vezes, a um discurso demagógico.’
    être malheureux á paris c’est mieux que au djibouti
    claramente…

    ‘aqui no Luís, me sentir muito confortável.’
    Por uma lado é bom ouvir (ler) isto, por outro sentí-me como se fosse mobiliário :D

    ‘Há alguma relação entre dinheiro e felicidade?’
    Caraças, quem faz perguntas sou eu… :)

    ‘É complexo’
    Acho bem ficarmos assim. Manda vir mais um copo.
    ;)

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