3 comentários sobre “

  1. Estive aqui um bocado a pensar na frase.
    Também, é pelas oportunidades de pensar em coisas pouco habituais que gosto mais de vir aqui.

    A palavra ‘casalinhos’ parece-me ser a mais marcante, porque diferenciadora, ao nível da interpretação da frase.
    Experimentei substitui-la por ‘casais’. A frase perde o sentido, ou boa parte dele.

    Nunca andei à pesca, mas já vi como os pescadores fazem.
    Têm de arranjar um isco, que depende das espécies que existem naquela área, colocam-no no anzol, lançam à água e vão movimentando. Nestes movimentos vão percebendo onde está o peixe e a melhor forma de o apanhar.

    ‘Casalinhos’ remete para pares novos. Não necessariamente em idade. Casais que têm uma relação jovem, pouco madura, em que ainda não existe grande conhecimento um do outro. É por tentativas, pelas várias experiências que têm, que se vão percebendo… À partida, neste processo, quanto mais recente for a relação mais turvas, porque desconhecidas, são as águas em que se movimentam.
    Tal como os pescadores.

    E algo relacionado com o novo, com a descoberta destes casalinhos, trouxe-me à memória (não uma frase batida!), mas a belíssima letra de “A noite passada”, do Sérgio, que diz assim:

    A noite passada acordei com o teu beijo
    descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
    vinhas numa barca que não vi passar
    corri pela margem até à beira do mar
    até que te vi num castelo de areia
    cantavas “sou gaivota e fui sereia”
    ri-me de ti “então porque não voas?”
    e então tu olhaste
    depois sorriste
    abriste a janela e voaste

    A noite passada fui passear no mar
    a viola irmã cuidou de me arrastar
    chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
    olhei para baixo dormias lá no fundo
    faltou-me o pé senti que me afundava
    por entre as algas teu cabelo boiava
    a lua cheia escureceu nas águas
    e então falámos
    e então dissemos
    aqui vivemos muitos anos

    A noite passada um paredão ruiu
    pela fresta aberta o meu peito fugiu
    estavas do outro lado a tricotar janelas
    vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
    cheguei-me a ti disse baixinho “olá”,
    toquei-te no ombro e a marca ficou lá
    o sol inteiro caiu entre os montes
    e então olhaste
    depois sorriste
    disseste “ainda bem que voltaste”

  2. Luis Rodrigues disse:

    Se queres que te diga, já não tenho a certeza do que pensei na altura. O que penso agora é que os casalinhos (e sim, as palavras que se escolhem significam) tal como os pescadores andam fora de sitio, fora de horas.

    • Vá lá, até nem estive muito, muito, fora da coisa.
      Luís, pensei que houvesse ali uma rasteira das tuas. :)
      Para te dizer a verdade, a expressão que me ocorria por causa do desconhecido e talvez do escuro, tanto por parte dos pescadores como dos casalinhos era ‘andarem às apalpadelas’, mas dei uma volta maior para não a utilizar, por causa de se poder fixar apenas num lado da interpretação que eu não queria.

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