11 comentários sobre “

  1. É público que o meu slogan é:
    “Amar o abismo da descoberta. Sem cair.”
    Já lá vão cerca de três anos que o criei. Se fosse hoje, escreveria exactamente as mesmas palavras.

      • Sim, consigo. Não significa que de vez em quando não escorregue e não faça umas esfoladelas nos joelhos. Coisa sem importância se atender ao que vale mais.
        Consigo, mas dá trabalho organizar essa disciplina (ou seja, desorganizar) e às vezes até custa bastante.
        Porque temos tendência a querer o previsível, a definir todas as coordenadas, pois, dá-nos a sensação de comando e de segurança. Não é raro preferir-se a segurança (que em boa parte é ilusória) à descoberta. Mas não será esta, a segurança, que mais nos enriquece, que nos faz crescer e é mais compatível com a dimensão humana?

        Quando deixei o comentário lembrei-me imediatamente de um exemplo prático que se passa comigo. Na altura não tive tempo de o referir, mas agora tenho.
        Durante bastante tempo planeei escrupulosamente as viagens que fiz. Claro que há aquele aspecto positivo de eventualmente se rentabilizar melhor o tempo. E isso dava-me segurança, a sensação de controle das coisas.
        A vida foi-se fazendo e, para o bem e para o mal, ensinou-me que retirando a organização do ‘básico’ que nos dá um certo conforto, o controle é uma treta, tem muitos pés de barro. Para além disso, fechamo-nos a muito, reduzimos a descoberta.
        Nas últimas viagens asseguro os aspectos básicos que me deixarão em situações complicadas se falharem, embora tenha consciência que podem falhar na mesma, leio alguma informação sobre os lugares e o resto que seja ‘simplesmente’ o que encontrar. Provavelmente tenho visto menos monumentos, demorado mais tempo nos caminhos que no momento decido trilhar, mas tenho tido acasos que me enriqueceram de forma extraordinária.
        Por exemplo, fez ontem dois anos que conheci o artista Sciola, que morreu no dia 13. Um homem com quem estive cerca de duas horas, mas foi o bastante para me fazer mais feliz. Falei dele aqui: http://nascernapraia.blogspot.pt/2016/05/quando-das-pedras-se-faz-musica.html
        Cheguei a ele numa dessas histórias de descoberta. A minha primeira vez na Sardenha. Cansada de andar, entrei numa agência de viagens para recolher folhetos. O dono, que tinha estado há uns meses antes em Lisboa, quis conversar um bocado e falou-me numa brasileira (por causa da língua) que tinha muitos contactos. Foi a Tamara que me proporcionou chegar até Sciola, assim como a uma quinta ‘perdida’ nos confins do mato, ao estilista que trabalha para as grandes marcas numa oficina pequenina… Olha, o que eu deixava de ganhar se não amasse o abismo da descoberta, se não corresse risco, se andasse num traçado previamente delineado?
        Esta minha maior vontade de caminhar sem destino também julgo estar muito relacionada com um interesse e vontade maiores de conhecer a vida dos lugares, as gentes.

        Sim, consigo. Às vezes com esforço, mas vale a pena.

  2. Posso meter mais uma colherada?
    Tem a ver com o comentário / pergunta do Cássio. (Por causa dos níveis não sei se estou na posição correcta.)
    É que o Cássio fez-me pensar se não terei os pés bem assentes na terra e se não vivo no mundo da lua. Sei que o que disse anteriormente pode prestar-se a essa interpretação.

    Tenho a noção clara que há áreas, como a do trabalho, que é muito importante assegurar e isso exige disciplina, esforço, traçar de planos. É uma questão de sobrevivência, de se poder usufruir de coisas (consumos culturais, por exemplo) que implicam ter dinheiro, entre outros aspectos.
    Contudo, sem pôr em causa a responsabilidade e esforços que tal implica e são necessários, muita planificação e traçados muito rígidos fora do básico, não funcionam.

    Não faço esta afirmação baseada apenas na experiência pessoal. Vejo o que se passa à volta.

    Nas vidas com um planeamento muito apertado e que os acasos até nem lixam o traçado, constato que o facto de não se pisar fora da zona de conforto, cresce-se menos, no sentido em que há menos mundo.
    Também há as outras vidas em que se delineou escrupulosamente, mas a que o destino não achou graça e baralhou tudo. Como não se deu margem, a decepção e o medo podem ser tão fortes que paralisam, não havendo capacidade para ultrapassar as dificuldades.

    Daí que o meu entendimento, agora mais reflectido devido à intervenção do Cássio, é que isto do ‘destino / planeamento’ não pode/deve ser levado demasiado a sério, extremado. E que é muito importante ter a percepção de que há uma margem que nós não controlamos, ou podemos não ter hipótese de controlar, Em certa medida até é bom que seja assim.

    Não sei se consegui fazer-me entender.

    • Luis Rodrigues disse:

      E será que controlamos a parte que controlamos?
      Que isto do admirável mundo mundo tem muito que se diga e pouco que se veja.
      Ou sinta.

      • Não, Luís, no limite nós não controlamos nada, embora muitos tenhamos a ideia que controlamos uma parte ou muito.
        Isto também não é necessariamente mau porque permite agarrar uma linha que seja de organização e de esforço

        Tenho perfeita consciência que de um momento para o outro o jogo pode virar-se e a vida de uma pessoa ter de seguir um rumo completamente diferente. Não é pessimismo. Mas talvez convenha não se pensar muito nisso, embora ter consciência não faça mal nenhum. Para nós e para os outros. Essa consciência faz de nós mais humanos.

        Se nós não controlamos, então quem é que controla?
        Não sei responder-te. Nem sei se gostaria de saber.
        Julgo que um crente numa qualquer religião ou em algo místico, terá essa resposta. E é provável que isso o faça sentir-se apaziguado.

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