Porquê?

Ashraf Fayadh

Lembro-me do coro de indignação perante as decapitações do Isis.
Sei das sanções impostas ao Irão, por fazer parte do eixo do mal.

Ashraf Fayadh vai ser decapitado na Arábia Saudita por alegadamente ter abandonado a sua religião. Que o seu livro de poemas apelava ao ateísmo. Não teve direito a advogado de defesa nem a ser ouvido pelo juiz.

Só no mês passado a Arábia Saudita executou assim 47 pessoas. A maior parte por decapitação pública.
E no entanto faz parte do reino do bem. Ainda há poucos meses a Arábia Saudita passou a pertencer ao conselho dos Direitos Humanos da ONU. Não vejo sanções nem sequer censuras.

Abdullah bin Abdul Aziz Al-Saud

Na Arábia Saudita quem roube é punido com amputação das mãos. Uma mulher não pode conduzir ou falar com homens que não sejam da sua família. Quando morreu o rei Abdullah (na imprensa nunca o tratam por ditador), as Nações Unidas expressaram pesar dizendo, entre outras coisas boas, que sob sua liderança, a Arábia Saudita também se tornou um importante contribuinte de questões humanitárias, ajudando a melhorar a vida de pessoas em todo o mundo.

E eu só pergunto porquê? Porque faz a Arábia Saudita parte do eixo do bem? O que é o mal e o que é o bem?

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7 comentários sobre “Porquê?

  1. Coincidência ou não, ontem recebi o relatório anual da Amnistia Internacional, de 2015, entidade de que sou membro há cerca de quinze anos.
    Como de costume li com atenção, vi a contabilidade assinalada dos ganhos e das perdas em termos da protecção internacional dos direitos humanos.
    A certa altura vem um texto relativamente longo sobre a necessidade de revigoração por parte da ONU.
    Pelo que se depreende, e agora já são palavras minhas, aquela entidade prostitui-se… A Arábia Saudita é boa em petróleo. Talvez o troco sejam uns milhares de barris.
    Mas haverá um eixo do bem?
    Haverá um eixo do bem que tenha poder para vingar enquanto tal?

  2. O Irão também tem petróleo, não acho que se trate disso.
    São do eixo do bem aqueles que são amigos da USA, como foi o Chá da Pérsia.
    Enquanto Irão, fez frente à USA, não acatou as suas ordens, por isso faz/fez parte do eixo do mal.
    Estes ‘eixos’ nada têm a ver com direitos humanos, têm apenas a ver com acatr ou não ordens superiores, ou seja, ordens da USA

    • Inconfessável, falei em direitos humanos, o que continua a parecer-me fazer sentido, pelo facto de as medidas tomadas (talvez ainda pior as omissões) constituírem atentados à liberdade e outros direitos fundamentais das pessoas.
      Creio que o acatar ou não esse tipo de ordens tem impacto ao nível do atentado ou da salvaguarda – conforme o lado – dos direitos humanos.
      Talvez o falar aqui na Amnistia Internacional tivesse introduzido algum “ruído”, o que não pretendia. Apenas mencionei a entidade pela circunstância de o relatório anual também referenciar preocupação nessa matéria.

      Quanto ao petróleo, que aqui tem o significado de poder económico, pode não ser a variável principal. Pelo menos, claro que não será a única.

  3. Isabel, não me fiz entender.
    Acho quer tens razão, deveriam ser esses os princípios orientadores, mas não são, na minha opinião.
    os ‘eixos’ são aquilo que são: política reles

    • Estou de acordo contigo.
      Também me parecia que apenas estávamos a utilizar expressões diferentes. :)

      Inconfessável, ontem estive a ouvir uma conferência de Edgar Morin sobre o que ele designa de “crise geral da humanidade” e que julgo fazer sentido referenciar aqui. Ei-la: https://www.youtube.com/watch?v=V3t7UFTpDHE
      Interessante: a certa altura, ele cita Zygmunt Bauman, o “sociólogo das relações líquidas” que o Luís já aqui tinha trazido no passado dia 11 de Janeiro em http://tintanobolso.escritas.org/2016/01/zygmunt-bauman/ , e em cuja ‘discussão’ participaste.

    • Luis Rodrigues disse:

      Os meus vinte e cinco tostões:
      Isto dos eixos é mais uma manobra da reacção. Sabotagem, em resumo.

      Haviam para aí uns maduros a teorizar que isto entrando nos eixos, seria o melhor dos mundos. Orgasmos múltiplos diários a pedido. Distribuição publica de francesinhas. Apropriação colectiva da Empresa Portuguesa de Mojitos Livres. Drones indviduais com sois incrustados. O porto a jogar como no tempo do Vilas Boas. Enfim, uma cena fixe.

      Com a sabotagem, se por acaso conseguirem que entre nos eixos, entra num daqueles dois eixos que não têm graça nenhuma.

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