Zygmunt Bauman

P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um céptico sobre esse “activismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?

R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você.

É possível adicionar e remover amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e remover amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interacção razoável.

Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu auto-proclamado. Foi um sinal:

o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que vêem são os reflexos de suas próprias caras.

As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazenteiros, mas são uma armadilha.

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33 comentários sobre “Zygmunt Bauman

      • Na esteira da senhora Isabel e do próprio Bauman, lembrei-me de um texto cujo título não recordo agora e em que Bauman utiliza o termo “heterofobia” para comentar a respeito de comunidades e as suas relações endógamas, especialmente em relação às dificuldades de inauguração e manutenção de diálogos entre comunidades diferentes. Em consequência disto, acabamos por estar em “igrejas cibernéticas”. Talvez por isto, digo, por não gostar de igrejas, eu tenha decidido por suspender o meu perfil no Facebook.

        • Luis Rodrigues disse:

          Igrejas cibernéticas é um grande conceito. As igrejas do novo milénio.
          A frequência das igrejas tradicionais de tijolo, está em crise. Tal como estão as lojas de tijolo tradicionais.
          Venham então as lojas e as igrejas virtuais.

          Não suspendi, porque há pessoas que quase só consegui contactar pelo fb. E isto também me preocupa um pouco. Que o maior directório de endereços esteja entregue a talhantes.

        • O Cássio fez-me pensar noutro “detalhe”.
          À excepção das páginas ou perfis “comunidade” (não sei se estou a utilizar a designação correcta), muitas pessoas, nas quais me incluo, aceitam ou convidam “amigos” que conhecem ou das quais têm referências e rejeitam ou demoram tempo a decidir-se sobre um elemento novo. (A minha afirmação é apenas baseada no que oiço e leio.) Mas a ser tendência o que disse, de facto nas redes sociais reproduzimos mais as comunidades a que já pertencemos e não encetamos ou não aderimos a outras que impliquem sair da zona de conforto. Uma ilusão de nova comunidade, talvez.
          Assim, estar numa rede social e rejeitar quem se aproxima de nós fará muito sentido? E volto a dar a mão à palmatória porque já fiz isso e até só tenho, também por isso, quatro dezenas de pessoas no fb.

          A “máscara” é uma coisa que me chateia.
          Se nas redes sociais não deveria ser expectável que se use a mesma linguagem que se utiliza noutras situações (o Luís referiu-se a isto), também não deveria ser um meio que às vezes é aproveitado para ter atitudes muito diferentes, pela negativa, das que se têm com as mesmas pessoas que se conhecem no real. Já passei por isso e senti como desonesto, até uma forma de violência.
          Penso que é realmente muito desconfortável e perverso. Talvez seja uma explicação para o que disse mais acima.

          • Luis Rodrigues disse:

            Não é tanto usar uma linguagem nas redes e outra fora.

            É diferença entre contextos. Não digo palavrões na presença da minha mãe, mas com um amigo acontece.Sou consultor e profissionalmente devo passar a imagem dum gajo responsável e sério. Quando me vou emborra e tiro o casaco posso ser o maior maluco e imbecil possível que isso não afectava a esfera profissional, porque eram mundo que não se tocavam.

            No fb está tudo ao molho, porque nos amigos do fb muitas vezes temos clientes, colegas de trabalho, amigos, família, tudo.
            Quando comecei no fb atirava lá uns bitaites que me vinham á cabeça. Um dia a minha contabilista disse-me que achava muito estranho que aquele que escrevia no fb era o mesmo que falava com ela.

            É certo que se pode publicar para uma lista personalizada. Mas isso resulta naquela ideia que se está a esconder coisas.

            • Ando há uns dias a pensar sobre isto e tenho ali uma página aberta no blog para divagar sobre o facto e não me sai nada de relevante.

              Por causa do tipo de fotografias, das músicas,das coisas que escrevo ou que outros escrevera e eu partilho, há a ideia generalizada de que sou uma pessoa sem sentido de humor e depressiva.

              Caramba! Sou capaz de níveis de idiotice de fazer corar o mais idiota dos idiotas; passo a vida a tagarelar e a dizer piadas (de há uns anos a esta parte, menos, é certo, ainda assim…) e, por causa de momentos – que é isso que as postagens são, momentos – levo com o rótulo «tirem-lhe as facas da frente, não vá ela ter ideias».

              Por isso é que gostei tanto desta observação do Pedro Mexia:

              «A ideia da exposição da intimidade é enganadora, porque as pessoas presumem sempre que sabem coisas que não sabem, fazem inferências baseadas em nada. Julgo que a intimidade diz respeito aos temas da poesia, todos os temas grandes da poesia são de certa forma íntimos – o amor e a morte são assuntos bastante íntimos. Mas um poema não é um diário.»

              Nem o que se partilha numa rede social é exemplo de tudo o que somos, acrescentaria eu.

              • Luis Rodrigues disse:

                isso é que tens preocupações de ‘estilo’ quando publicas. A maior dos blogues têm um padrão, é par pôr determinado tipo de coisas e filtras o que para lá vai.
                Experimenta publicar tudo que te apetece e te vai pela mona, e já será mais um espelho de ti e não um espelho da tua obra.

                • Não é necessariamente isso, são coisas que gosto e que não tenho oportunidade de partilhar em mais lado nenhum. É muito mais fácil arranjar quem ouça as idiotices (ainda ontem a minha mãe, coitadinha!, esteve cinco minutos à espera que lhe contasse uma coisa, tal era o ataque de riso com que estava), do que quem partilhe estas coisas mais bonitas, mais estéticas, sei lá!

                  Não deixa de ser estranho que o lado que quem não me conhece mais vê seja o lado que os que me conhecem menos querem conhecer.

                  Mas foi bonito teres escrito «a tua obra» – que pomposo!

              • Carla, eu (ainda) não sei que ideia as pessoas que apenas me conhecem do blogue e das redes têm de mim. O que estranho é a estranheza, e passo a redundância, que manifestam algumas dessas pessoas e outras do real acerca dos assuntos que abordo e, sobretudo, a forma como o faço.
                E houve em mim uma espécie de desconforto, não necessariamente do mau, que me levou a pensar no meu registo para me certificar que não estaria a construir um boneco.

                No meu caso não penso na questão de manter uma linha de coerência, até porque nunca a defini. Escrevo sobre o que quero e como é mais conforme comigo.
                Mas não vejo que seja negativo procurar-se um estilo, seguir-se um registo previamente delineado.
                Mais, até admito, no sentido da aceitação, o que algumas pessoas assumem fazer: vestir o personagem que gostariam de ser. E isto sem que tenha intenções perversas, mas sim como um esforço para se ultrapassarem e melhorem no que julgam valer a pena. Algo próximo da catarse, talvez.

            • Luís, quando te citei pretendi referir-me à linguagem utilizada em diversos contextos e consoante o papel social que desempenhamos, como tinhas referenciado e agora confirmaste.
              Peço desculpa por não ter expressado bem o meu entendimento e eventualmente levar a uma deturpação das tuas palavras.

              • Luis Rodrigues disse:

                Deturpa-me à vontade, é a falar que a gente se entende e desentende. basta ler ou ouvir e de certeza que também estou a deturpar algo.

                Para permitir a continuação destas conversas, aumentei o limite de respostas encadeadas para 10. O efeito secundário é estreeeeiiitooo :)

  1. Sou utilizadora recente e algo atípica de redes sociais. Digo isto porque pode ser um dado que conte na “avaliação” do comentário.
    Apenas estou registada no fb e no g+, há pouco mais de ano e meio e com uma utilização pouco frequente em termos de publicações (cada vez mais raras) e faço contactos que se resumem quase exclusivamente a fazer chegar rapidamente uma informação ou dizer a uma pessoa que o assunto não está esquecido, tipo aviso ou atenção, ou coisa do género.

    O facto de ter diminuído as publicações, o tempo de utilização, os comentários, tem muito que ver com uma certa perversidade que vislumbrei encostada a um sistema de trocas bastante alimentado pelos utilizadores massivos e que resvala para as cobranças e para o que presumem ser o controlo da vida dos “amigos”. Só podem presumir, embora levem aquilo como um diário, uma exposição do que se faz no dia-a-dia. Recentemente fiz a experiência de publicar fotos que tirei numa cidade, identificando-a, mas propositadamente sem indicação da data. “Então, vieste cá e não disseste nada.” Pois fui, mas há seis meses.

    Tive algumas experiências de fazer comentários contracorrente sobre assuntos mais sérios e que não tiveram sequência e foram como que abafados. Por exemplo, recordo-me que no dia da morte do Manoel de Oliveira serem publicadas umas larachas que associavam o trabalho dele a uma parceria com uma actriz porno. A propósito disto lembrei-me de falar, porque não é uma questão pacífica, se existem limites para o humor. De tempo, temas, etc. Morreu ali. Talvez porque pedia mais do que um like, apelava a exercitar os neurónios e parece haver cada vez maior dificuldade em tomar posição, o que não tem só a ver com o comodismo.

    Há uns meses duas pessoas disseram-me ter sido ameaçadas de despedimento por comentários que deixaram em redes sociais, tendo sido invocado esse factor.

    Como a discussão é rara, a principal vantagem que vislumbro na forma como as redes sociais funcionam é ser um veículo fácil para divulgar coisas. Assim tipo uma agência de publicidade de grande escala.

    Pois, o “sociólogo das relações líquidas” vem pôr o dedo na ferida no que diz respeito ao jogo dos espelhos das redes sociais.
    Partindo do que ele diz, e com cujas premissas concordo, surgem-me questões: admitindo um cenário (improvável) de ficarmos sem redes sociais, será que as pessoas se encontrariam mais e dialogariam mais no sentido da interacção que tem controvérsia, de que o Zygmunt fala? Conheço várias pessoas que não estão registadas em redes sociais e que voluntariamente se isolam cada vez mais e até fogem da interacção. Então, o que é que está mais a acontecer?

    Do que me apercebo e sinto na pele porque me faz falta, o que ele designa de diálogo real está em queda. Para além de as pessoas terem cada vez mais afazeres laborais, de os apelos de entretenimento terem aumentado, de sermos menos treinados para cultivar massa critica, julgo que de forma muito sub-reptícia mas “eficaz”, as fragilidades que se vivem no mundo do trabalho são altamente condicionadoras, tanto para arranjar emprego como para não deixar cair um contrato de trabalho. É que emitir opiniões, tomar posição, fazer parte de determinados grupos, frequentar determinadas actividades e até como cada um estrutura as relações sentimentais, na maior parte das vezes é escrutinado.
    Democracia? Pois…
    O isolamento pode ser uma forma de defesa. Acredito que cada vez o seja mais.
    No entanto, julgo que não é desculpa, mesmo com aqueles condicionalismos que acabei de referir.
    Cada um, na medida das suas possibilidades, pode dar um passo para que o mundo não se afunile mais. Às vezes até pode passar por fazer meia dúzia de quilómetros, passear em “ruas novas” e agitar as ideias para voltar a dar.

    • Luis Rodrigues disse:

      Talvez não seja tão atípica quanto isso. A maioria não se vê. Os que postam mais são os que mais se vêm, o que não quer dizer que sejam mais que os outros.

      Uma das coisas que me chateia no fb, é essa falta de discrição e de separação. O que digo e a forma como digo as coisas não são as mesmas conforme esteja em contexto de trabalho, família ou amigos. O google mais tentou resolver isso com a ideia dos círculos. Que por vezes resulta nesses “então e não disseste nada?”

      Há pouca tolerância e discussão , porque o meio não dá os meios. As coisas escritas são mais dadas a más interpretações. E não existem formas fáceis de continuar ‘conversas’ no fb. Os comentários não se prestam, e são rapidamente enterrados. Quer-se coisas novas.

      Se o dialogo real está em queda, não sei. Na minha vida pessoal está, e por isso há que ter cuidado para não julgar o mundo por mim.

  2. Estou de acordo com o que a Isabel Pires diz.
    Come ela, vou pouco ao fb, talvez mais um pouco do que a Isabel, mas tenho ‘amigos’ interessantes que não conheço a não ser dali, provoco controvérsias e felizmente tenho tido resposta.
    Também é verdade que já me desamigaram, mas até agradeço que o façam quando não pode haver diálogo.
    O que mais valorizo é o que tenho aprendido, tanto sobre as pessoas em geral como sobre assuntos que provavelmente me teriam passado ao lado e não, não me estou a isolar.

  3. As redes sociais são como os vícios inocentes que nos ocupam a vida tempo demais até ao dia em que dizemos «basta». Claro que hão-de fazer mal, por abuso, mas depois sarem dos sistema e é quase como se nunca lá tivessem entrado.

    Sim, esta que te comenta (olha só a pomposa) já foi viciada nas ditas redes. Tanto que deixou de sair muitas vezes e estar presencialmente com pessoas, para estar virtualmente com outras. Mas isto foi no tempo da outra senhora, numa rede social que acho que já nem existe.

    Trouxe de lá um punhado de amigos que há 10 anos estão na minha vida, sobretudo nos maus momentos. Por isso, diabolizar as socializações virtuais também não é o caminho,

    Depois a vida acontece e isto passa. Vive-se bem sem o FB, não se morre se não houver comentários ou likes por aí além, e mesmo o blogue às vezes anda ali no fio da navalha – estou sempre a pensar se vale a pena escrever sobre um assunto, se acrescenta, se não é mais do mesmo, acabo quase sempre por me limitar à linha editorial que é o martírio interior da minha pessoa (e se calhar é só preguiça).

    Já não entusiasma lançar o terror no FB dos gatinhos e da nobreza de carácter dos seus utilizadores, nem fazer uma pergunta que, de tão ao lado do que se espera, desespere o dono da bela postagem. Os resultados são previsíveis e cansativos.

    Estar nas redes sociais é uma inevitabilidade, um mal necessário, mas não tem de nos fazer mal. Basta que cada um saiba dosear o tempo que lhes dá.

    Agora que já comentei, passa no meu e comenta, tá? Ou queres que te deixe uma imagem de um gatinho? :D

    • Luis Rodrigues disse:

      Essas ‘redes’ de outros tempos estavam mais feitas para a criação das tais comunidades.

      As redes evoluíram como a TV, e tudo evolui. Há cada vez mais, tens acesso a quantidade cada vez maior, podes mudar de um para outro com facilidade e por isso se dedica cada vez menos tempo a cada coisa. É tudo rápido e volátil.

      • Ter uma rede maior ou menor depende em muito disto « a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas». É nos dias e nos momentos que estamos menos ocupados que mais investimos nas redes; é quase certo que num dia em que saias de casa e andes de uma lado para o outro a fazer coisas ou a estares com pessoas nem te lembres de passar pelo FB ou twitter ou o que for.

        Claro que também depende do quanto se quer construir uma identidade virtual, aí esses dias mais apressados podem ser o terreno fértil para mais actividade.

        A facilidade com que se acede à Internet está a gerar uma histeria colectiva semelhante à que se sente no início da paixão. Acho que as pessoas precisam de respirar fundo e perceber para onde estão a ir e arrepiar caminho – ou então ir nesse sentido alegremente. :)

        Olha uma grande ideia: e se, em vez de andar tudo a trocar comentários em blogues e afins, se marcasse uma almoçarada para falar cara a cara? Não era o que se fazia antes?

        (não, não estou a insinuar que o devamos fazer, estou apenas a dizer que era o que se devia fazer :)

  4. Luis Rodrigues disse:

    Sim na verdade é isso, o fb destina-se a tapar os vazios que sentimos. Gera aquela sensação de estar ligado, de não estar sozinho. Quando se abre há la´sempre qualquer coisa nova para se ver. O fb vive disso.

    As pessoas põem lá coisas porque pensam que estão a comunicar com todas as pessoas que conhecem. É prático, não é? Já viste o tempo que demora a enviar um email ao fulano a, e depois ao b, etc? No fb dá tanto ‘trabalho’ ter 2 como 2000 amigos.

    Por outro lado quem lê, também é incentivado a ter os tais 2000 amigos. Aumenta a probabilidade de ter lá coisa para si e tapar a sensação de vazio, que uma inbox vazia não tapa.

    O perigo desta multiplicação em rede é que é torna as ligações cada vez mais fracas a ponto de se tornarem ilusórias. Quando se comunica em pessoa, por email ou telefone, temos pouca ligações mas mais fortes. Quando algo se passa connosco e precisamos de mais atenção do que um clique, o que é preciso são amigos do peito e não amigos do fb.

    • Exacto! Passar dias à espera que a caixa do correio dê sinal de vida pode ser uma chatice, é muito mais prático apostar numa postagem com retorno garantido que nos garante um entretém por uns tempos e que nos distrai de outras esperas.

      Mas não é a mesma coisa.

      O que uma pessoa quer, quando está triste, é que os amigos peguem no telefone, nos contem duas ou três anedotas bem porcas e nos façam rir. Quer dizer, eu não queria, mas fizeram-no na mesma e que remédio tive eu em ouvir. :D

  5. Isabel, minha querida, tenho de responder aqui (Luís, meu caro, fizeste bem em voltar atrás, que a coisa estava difícil de ser lida).

    É fácil pensar-se que há uma construção narrativa por detrás de um blogue quando ele é devedor de um título literário. Se ele foi escolhido, foi por causa da descrição feita da rapariga e que consta no «sobre mim». A partir daqui, tudo o que lá está é meu – quer seja escrito por mim, quer porque assim gostaria que tivesse sido.

    Não há uma linha editorial pré-estabelecida, o que sucede é que o blog aconteceu por causa de uma situação e essa situação tem-se repetido ao longo de anos (o que é uma gaita!). Tem lá coisas divertidas e menos divertidas, se calhar as segundas andam a abafar as primeiras ou quem me lê concentra-se mais nestas.

    Por isso, também não me fixo muito nas linhas – partilho o que me apetece no momento, o que descubro, o que acho bonito de partilhar.

    Para o resto, já há demasiado barulho nos outros blogues, para eu voltar aos assuntos.

    O que me incomoda é que as pessoas que me conhecem mesmo, que falam comigo, que convivem comigo, que são, ou foram, excessivamente reais, se agarrem a pormenores para manterem a imagem errada que têm de mim. Como se tivéssemos de ser todos uns patetas a gostar das mesmas coisas.

    No fundo, o que me chateia a sério é isso, a censura que se faz ao gosto do outro porque não é igual ao meu, sem tentar perceber porquê.

    Os que nunca me viram na vida podem assumir o que quiserem. Eu também assumo deles o que quero.

    • Carla, não gosto de começar um comentário com “tens razão”, mas agora tem mesmo de ser. E mais exactamente sobre o que disseste no penúltimo parágrafo. Parece ser relativamente frequente. Ainda ontem passei por uma situação dessas.
      Até não sei se isso é mais incisivo nas pessoas com quem nos cruzamos no real, até porque há uma tendência maior para permearem essa avaliação com histórias que sabem ou presumem saber da nossa vida.

      Nesse sentido, o blogue dá-me lufadas de ar fresco.
      Já tenho pensado nas eventuais diferenças em tê-lo aberto agora, com mais de meio século, ou há quinze… Porque não sei se a variável idade faz muita diferença na forma como se produz e gere a coisa. Os veteranos saberão. ;)

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