Ode ao vinho de Omar Khayya

Rubaiyat-Omar-KhayyaO pior do passar do tempo é que vamos desistindo, vamos perdendo o interesse, seja por cansaço, seja por desilusão.
Isto acontece a quase todos, se calhar faz parte da morte. Quando já se desistiu de tudo, morre-se. Lembro-me do Eça de Queirós nas palavras dele se foi tornando ‘um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo’.

Mas não é inevitável, há quem lute sempre como se fosse ontem. Há na Galiza pelo menos um ‘gaulês indomável’, o bemsalgado, com quem descubro coisas.

Uma delas, as Rubaiyat (poemas de quatro linhas) de Omar Khayya, um persa dos tempos em que não havia essa coisa da especialização. Deixou obra em áreas tão diversas como a poesia, filosofia, geometria, matemática e a astronomia.

O Omar Khayya se vivesse hoje seria um Vinicius, a pular de esplanada em esplanada, sempre de copo na mão. Os temas são os de sempre, o amor e a morte. E o vinho como símbolo da urgência de viver.

Num procura que fiz, descobri o que já sabia, que quem traduz escreve de novo. Vi traduções do mesmo poema irreconhecíveis entre si. Acabei por escolher as feitas pelo Alfredo Braga. Deixo um gostinho.


Procura a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Bebe um copo cheio de vinho,
e pensa sentado ao luar
Talvez amanhã a lua me procure em vão.


Eu sei, uma rosa não murcha
perto de quem tu agora sacias a sede;
mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,
e que te fez desfalecer.


Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?


Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.


Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo
e esquecer a nossa incurável ignorância.


Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.


Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo
debaixo da terra, sem amigos, sem mulheres.
Confio-te um grande segredo:
As tulipas murchas não reflorescem mais.


Podes me perseguir, miragem de outra ventura,
podes modular a tua voz, mas só escuto aquela
que já me encantou. Dizem-me: Deus te perdoará.
Recuso o perdão que não pedi.


Um pouco de pão, um pouco de água,
a sombra de uma árvore, e o teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do que eu,
e nenhum mendigo é mais triste.


Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho
que embriagará os que por lá passarem,
e uma tal serenidade vai pairar ali,
que os amantes não quererão se afastar.


Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada.


A abóbada celeste se parece a uma taça emborcada;
sob ela, em vão, erram os sábios.
Ama a tua amada como a ânfora ama o copo;
olha, boca a boca, ela lhe dá o seu próprio sangue.


Um dia pedi a um velho sábio
que me falasse sobre os que já se foram.
Ele disse:
Não voltarão. Eis o que sei.


Muitos se inspiraram no Omar Khayya. Fernando Pessoa quando morreu, deixou na gaveta uma tradução em inglês do Rubaiyat toda anotada e rabiscada. Deixo aqui o link

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