Contraditório porquê se a fonte da notícia foi alguém do Governo? por OSCAR MASCARENHAS

Ainda não tinha aberto o DN online de 21 de fevereiro, terça-feira de Carnaval, e já um leitor “meio ensonado” me alertava para a manchete do jornal: “Trabalhadores dos transportes não pagam medicamentos e recebem baixa por inteiro.” O leitor, AJF, que me escrevera “às 5 e 43” da manhã, declarava-se “incrédulo”: “Sou funcionário da CP e não tenho essas benesses (nem outras que alguns jornais têm vindo a anunciar).”

A manchete saía no primeiro dia de uma greve de trabalhadores da CP e do metro de Lisboa.

Pouco depois, chegava-me outro e-mail: “Os trabalhadores dos transportes nem têm medicamentos gratuitos nem recebem o salário quando estão de baixa”, escreveu o leitor MH. “Nisso são iguais a todos os restantes trabalhadores. Não sei quem deu essas informações, o certo é que o DN não se preocupou sequer em confirmar as mesmas.”

Solicitei esclarecimentos à Direção do DN, que remeteu as explicações para o autor da notícia, Francisco Almeida Leite, o qual respondeu: “A notícia a que se refere o provedor é de interesse público manifesto. Nesse dia realizava-se mais uma greve na CP, daí que o dever de informar os nossos leitores sobre as regalias e benefícios dos trabalhadores de algumas empresas de transportes seja mais do que óbvio. […]”

O jornalista acrescenta: “Sobre o conteúdo da notícia por mim redigida e assinada, reafirmo a sua veracidade e faço notar que as queixas ao provedor são apresentadas através de duas cartas anónimas que pretendem pôr em causa o trabalho de um jornalista sénior da casa. Os dados que constam da notícia fazem parte de um documento interno do Governo, usado pela tutela no desempenho da sua ação política. A sua divulgação não era suscetível de obter um contraditório junto dos sindicatos porque a matéria que ali está vertida faz parte dos acordos de empresa. Quem tiver dúvidas sobre o assunto, faça o favor de consultá-los. O DN pensa no interesse dos leitores, milhares dos quais são utentes da CP e de outras transportadoras também referidas no texto, e têm o direito de conhecer as regalias e benefícios que ali vigoram e que todos nós pagamos com os nossos impostos. O dever do jornalista é divulgá-los, sobretudo num tempo em que, por exemplo, são cortadas isenções de taxas moderadoras a idosos que têm dificuldades graves no acesso à saúde, comparticipações em remédios de doentes crónicos em fase terminal ou prestações sociais como sejam complementos de reforma. Por muito que isso custe a certos leitores anónimos.”

Preciso, desde já, esclarecer que os dois leitores que citei se identificaram perante mim de modo suficiente, não podendo ser considerados anónimos. Não dou atenção a correspondência anónima. No caso, fui eu que guardei a confidencialidade das suas identidades – e dispenso-me de explicar porquê.

Confesso que a resposta de Francisco Almeida Leite me deixou perplexo porque conseguiu a proeza de não me dar um único argumento jornalístico para a notícia que fez: há trabalhadores que fazem greve, pelo que é preciso dizer à população as regalias que têm os que fazem greve e os que a não fazem; há idosos que veem cortadas as suas taxas moderadoras, daí que seja necessário conhecer as regalias dos trabalhadores dos transportes. Nada mau para um argumentário político-partidário, mas que é do jornalismo?

Deixo uma reflexão sobre o tema do “interesse público” para o outro texto nesta página e volto à resposta de Francisco Almeida Leite.

Argumentário. Palavra-chave. É que a notícia em causa foi integralmente baseada num documento de circulação interna a que o jornalista teve acesso no ministério de tutela, e que ele próprio descreveu como “relatório interno que funciona como uma espécie de argumentário do Governo de resposta à greve”.

Não há nenhum mal em um jornalista divulgar um argumentário interno de uma entidade pública. Mas mandariam as regras básicas do jornalismo que o fizesse de uma de duas maneiras: ou para denunciar a existência do documento como elemento de propaganda ou contrapropaganda política; ou para verificar a veracidade e consistência dos “argumentos”. Ora, esta verificação faz-se através de investigação autónoma, confrontando documentos e informações disponíveis; ou, no mínimo, estabelecendo o contraditório, ouvindo aqueles contra quem se dirigem os argumentos.

Francisco Almeida Leite entendeu que não devia confrontar os sindicatos “porque a matéria que ali está vertida faz parte dos acordos de empresa”. Isso significa que ele próprio se deu ao trabalho de investigar, ponto por ponto, todos os acordos de empresa para concluir, por exemplo, que os “trabalhadores DOS transportes não pagam medicamentos e recebem baixa por inteiro”, o que, logo por azar, tirou da modorra um funcionário da CP às 5 e 43 da manhã!

Receio bem que essa investigação não tenha sido feita e que Francisco Almeida Leite haja dado como boas as informações que recebeu do Governo. Este meu receio é convertido em certeza por outro leitor que aqui identifico como MG: “O DN publica um ‘trabalho’ sem realizar qualquer investigação, sem exercício do contraditório, sem sequer tentar esclarecer a veracidade das informações que dá ou o seu verdadeiro enquadramento. Como resultado, mente aos seus leitores sempre que a sua fonte – o Governo – mente ao DN, engana os seus leitores sempre que a sua fonte enganou o DN. Um exemplo particularmente fácil para ilustrar isto mesmo: o DN coloca em título que os trabalhadores da Carris têm 30 dias de férias, contrapondo implicitamente no título e explicitamente no texto esses 30 dias aos 22 dias dos restantes trabalhadores portugueses – omite, por falta de profissionalismo ou má-fé, que esses 30 dias são de calendário (devido ao facto de se tratar de uma empresa com laboração contínua) e os 22 dias com que compara são dias úteis. Ou seja, um mês de férias tanto tem 30 dias de calendário como 22 dias úteis!”

O diretor de serviço naquele dia, subdiretor Nuno Saraiva, informou-me de que “neste caso, subscreve” a argumentação de Francisco Almeida Leite. Só me cumpre dizer-lhe que faz muito mal. Como explico no texto em baixo, invocar o interesse público e não cumprir o dever de lealdade para com os visados de os ouvir não é jornalismo, é propaganda. Foi esse, consciente ou inconscientemente, o exercício que o DN fez naquela manhã de terça-feira de Carnaval.

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