Um comentário sobre “

  1. r disse:

    O escândalo de me contradizer, de estar
    contigo e contra ti; contigo no coração,
    à luz do dia, contra ti na noite das entranhas;

    traidor da condição paterrna
    – em pensamento, numa sombra de acção –
    a ela me liguei no ardor

    dos instintos, da paixão estética;
    fascinado por uma vida proletária
    muito anterior a ti, a minha religião

    é a sua alegria, não a sua luta
    de milénios: a sua natureza, não a sua
    consciência; só a força originária

    do homem, que na acção se perdeu,
    lhe dá a embriaguez da nostalgia
    e um halo poético e mais nada

    sei dizer, a não ser o que seria
    justo, mas não sincero, amor abstracto,
    e não dolorida simpatia…

    Pobre como os pobres, agarro-me
    como eles a esperanças humilhantes,
    como eles, para viver me bato

    dia a dia. Mas na minha desoladora
    condição de deserdado,
    possuo a mais exaltante

    das poses burguesas, o bem mais absoluto.
    Todavia, se possuo a história,
    também a história me possui e me ilumina:

    mas de que serve a luz?

    pier paolo pasolini

    (acho que gosto mais dele nos poemas de que no cinema…)

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