• 11 Jan 2006

    o terceiro

    é para ter a certeza que nenhum blogueiro me vai alguma vez visitar.

    Os blogs vivem em grande parte num circulo fechado de auto consumo. Tu visitas um blog, que por sua vez te vai visitar. Eu esfrego-te as costas e tu esfregas as minhas. Estou convencido (sem base estatística que não seja a observação) que a esmagadora maioria dos visitantes dos blogs são donos de outros blogs.

    De modo, que se alguém cair aqui, e eventualmente comentar na esperança que eu vá visitar como moeda de troca, tirem os cavalinhos da chuva. Não gastem as teclas. Visito os blogs que acho que valem a pena visitar. O resto, sinceramente quero lá saber.

    Agora que já conquistei a inimizade de parte da comunidade blogueira, posso continuar em paz 🙂

     

     

     



  • 11 Jan 2006

    o sétimo

    saber que a morte
    morre e vem
    como sementes de ébano
    soltas no chão

    há qualquer coisa que morre
    e morre e morre
    depois permanece
    para nos ver partir
    partir e não voltar
    qualquer coisa
    que se arrasta devagar

    são os momentos que vejo para além dos olhos fechados
    dos dedos que batem nestas teclas imprecisas que nem olho
    para ver morrer para ver partir
    são teclas que são folhas são ébano, semente de algo
    que passa entre estes dedos
    que batem nestas teclas imprecisas
    sem ver sequer os olhos fechados que vêm morrer e partir
    não sei que dizer destes momentos
    em que os dedos percorrem estas teclas longe da luz do café onde não há música
    dos dias que não nascem
    não sei porque batem os dedos nestas teclas imprecisas
    para não partir, para não morrer e morrer e morrer
    há nisto tudo qualquer coisa que me olha
    que não percebo porque já tudo partiu
    os contabilistas da rua dos fanqueiros
    meteram-se num metro à noitinha
    nunca mais os vi
    talvez no dia seguinte tenham regressado daquele mundo escuro
    para onde entraram pelo metro naquela noite suja
    nunca mais vi a criadinha de saia e avental
    que imagino com flores na cabeça
    e uma luz que não pára de nascer
    não sei que fazer destas teclas imprecisas
    que não param de bater entre contabilistas e criadinhas de avental
    que é feito da luz que não parava de nascer?
    para onde vai o metro ao fim dos dias escuros?
    para onde vão os dedos nestas teclas inseguras?
    para onde vai a morte que morre e morre e morre e nunca volta
    mas permanece devagar dentro de mim
    na imagem que tenho da criadinha de avental e do metro cheio de escuridão e de noites
    que gritam vai vai
    vai senta-te ao sol ao mar
    vai para onde o metro não engole contabilistas como relógios enferrujados
    e as criadinhas não precisam de luz a jorrar da cabeça para colher flores

    vai e senta-te ao sol
    repousa os dedos inseguros que tapam os olhos ocos de luz de criadinhas e contabilistas
    para onde te leva essa luz que não cessa de nascer
    para os metros que morrem e nunca voltam
    permanecem solenemente nas vértebras que seguram dedos inquietos
    de que te serve ir morrer nascer jorrar luz, ver criadinhas, engolir contabilistas?
    é certo que seria delicioso morder com luxuria a nudez de quem se perde no metro numa noite escura
    inundar de café e musica os lírios cortados da criadinha
    é certo que seria delicioso abraçar o ir o vir o nascer o morrer e o morrer
    afundar-me no escuro metro com uma criadinha a jorrar lírios cortados de café e música
    trocar os dedos por línguas sedentas de bocas

    morrer e voltar num dia claro
    depois olhar para mim
    e ver uma sombra de sol
    cheio de coisas simples
    aquelas que fazem as crianças rir

    olhar para mim
    e ver-me em repouso
    as teclas inquietas
    velhas
    a um canto
    não olham para mim
    nem sei que existem

    olhar para mim
    e não reconhecer a criadinha e o fundo do metro
    ver o sol
    mesmo sabendo que tudo isto não passa de movimentos dos dedos irrequietos
    que batem nas teclas inseguras
    mas entre as teclas
    ver o sol
    onde um dia hei-de repousar

    sereno

    sem luz a meu lado

    (isto saiu à noite de um jorro – 9 de Janeiro de 2006)